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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Sem Unimed, Fluminense jogará patrocinado pelo SUS

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Assim como milhões de brasileiros que não tem plano de saúde, o Fluminense também dependerá do SUS para sobreviver. O rompimento da Unimed na parceria de quinze anos, que rendeu vários títulos ao clube, pegou jogadores e torcedores de surpresa. Por enquanto o Fluminense jogará com apoio do Sistema Único de Saúde, mas a diretoria do clube já negocia um patrocínio dos Tapetes Tabacow para a próxima temporada (na temporada 2014, o patrocínio foi da STJD Guarnições e Tapetões).
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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

“Você não merece ser estuprada”. Este é o padrão Bolsonaro de decoro.

Um comentário:
Da Folha, agora há pouco:

"Em discurso no plenário da Câmara, o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) disse nesta terça (9) que só não 'estupraria' a colega Maria do Rosário (PT-RS), ex-ministra de Direitos Humanos, porque ela 'não merecia'. Conhecido por suas posições polêmicas, contrárias aos direitos humanos, Bolsonaro atacou a ministra ao rebater um discurso feito por Maria do Rosário minutos antes no plenário da Câmara, no qual a ex-ministra defendeu a Comissão da Verdade e as investigações dos crimes da ditadura militar."

Por Fernando Brito, no Blog Tijolaço

Repetiu, agora da tribuna, a estupidez que já tinha feito tempos atrás, no Salão Verde do Congresso.

Bolsonaro afirmou que o Dia Internacional dos Direitos Humanos é o “dia internacional da vagabundagem”, direitos humanos só se aplicam a “bandidos, estupradores, marginais, sequestradores e corruptos”.

É um personagem assim que virou herói da direita brasileira?

Ah, e o que o valoroso Conselho de Ética vai fazer?

Pedir as notas taquigráficas para estudar um processo sobre a quebra de decoro por Bolsonaro.

Só rindo. Bolsonaro quebra, pica, mói e faz virar pó qualquer ideia de decoro e civilidade.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O otário que acreditou que Aécio iria ao protesto

Um comentário:
Um protesto pode virar, perfeitamente, uma comédia, como se viu sábado (6/12) em São Paulo.  O mais difícil é saber quem foi o palhaço principal.  São três os candidatos: Aécio, Lobão e Serra. Francamente, estou em dúvida sobre qual foi mais ridículo.

Por Paulo Nogueira, no DCM

Vejamos um a um.

Lobão começou o dia superlativo no Twitter. “HOJE O CHÃO DA PÁTRIA IRÁ TREMER”, tuitou ele antes do protesto.  Assim mesmo, em maiúsculas.

Pouco depois, ele usou o plural majestoso. “Chegamos !!!!!!!”. Para poupar seu tempo, aviso que foram sete pontos de exclamação.

Depois a realidade, esta pantera, começou a se impor. Disse ele no Twitter: “Infelizmente, tive mais uma vez que sair da passeata por todos os motivos que expus ontem. Estou de luto.”

No dia anterior, ele freneticamente tentara evitar que “militaristas”, como ele chama os que defendem um golpe militar, participassem do protesto.  Já não havia maiúsculas, já não havia exclamações, mas uma mistura de frustração com raiva.  A Folha captou um desabafo de Lobão. “Cadê o Aécio? Tô pagando de otário.

E aí chegamos a Aécio, outro candidato ao título de idiota do dia.

Bem, se Lobão imaginou mesmo que Aécio gastaria uma tarde ensolarada de sábado para ir a um protesto, é mesmo um otário.

Aécio faz tudo por uma manifestação num sábado contra a Dilma, exceto ir. Mas por momentos pareceu que ele romperia sua tradicional vida boa e mansa. Num vídeo postado na véspera do protesto, ele convocou as pessoas a ir para a rua.

Era presumível que ele mesmo fosse, mas Aécio se mostrou incapaz de mobilizar a si próprio. Ficou claro o tamanho de sua liderança. Talvez ele devesse ter mandado em seu lugar o Aécio de Papelão, mas nem isso.

Serra, mais trabalhador, foi. E então chegamos ao terceiro candidato à coroa de trouxa do dia.

Como Aécio, Serra gravou um vídeo no qual pedia que as pessoas fossem às ruas. Ele conseguiu dizer o seguinte: que nunca, em sua vida, vira manifestações tão espontâneas quanto estas que têm sido feitas contra Dilma.  Em seu mundo particular, Serra deve ter ficado impressionado com um protesto anti-Dilma em Belo Horizonte que se dispersou diante das primeiras gotas de chuva.

A capacidade de mobilização de Serra ficou tão evidente quanto a de Aécio. Fora o fato de que ele pelo menos foi, as estimativas giravam em torno de 800 manifestantes, divididos em dois blocos.

Um era o dos “militaristas”. Outro, o de “civis” como Serra. Isto quer dizer que Serra levou 399 almas para a rua.

Não. Aécio tem também sua parte, já que gravou um vídeo. Cada um levou 199,5 almas para a Paulista.

É uma dura parada. Aécio, Lobão ou Serra? A piedade me leva a excluir Lobão: ele é a única pessoa que acredita nos propósitos de políticos como Aécio e Serra.

Opto por Aécio como o mentecapto do dia. Serra ao menos compareceu.

A quem eventualmente o recrimine pelo WO que deu, Aécio poderia dizer uma frase em inglês que não tem tradução: “Get a life! Entrei na política por muitas razões, menos trabalhar.”
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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Trotsquistas que "se acham"

Um comentário:
Eles puxam lutas e perdem.  Foi assim pro pessoal do RJU de março a junho (greve nacional de 3 meses, sem vitória) e pro pessoal da CLT da Funpar (o reitor deu um nó neles no ACT e no caso das demissões com a vinda da EBSERH).

Não prestam contas de nada, mas querem dobrar o que arrancam do bolso dos filiados na mensalidade sindical.  Quem vai aceitar?

E tem esqueletos escondidos nos armários.  Morrem de medo que de lá saiam.

Essa a gestão dita "combativa" no Sinditest. Que tristeza. Quanta PSTUpidez.

Sorria, filiado do Sinditest! Seu dinheiro já está sendo gasto para viagens dos espertos para reuniões da CONfusão das LUTAS!

2 comentários:
A CONfusão das LUTAS, vulgo CONLUTAS, está a todo vapor gastando o dinheiro dos filiados do Sinditest-PR desde a fraude da assembleia de "filiação" em 4/11. Bom, verdade que eles já gastavam dinheiro da categoria financiando atividades da CSP-Conlutas antes (será que aparece na contabilidade?)...

Como o próprio site do SinditestPSTU-PR informa e fotografa (acima), eles estão garantindo que o governo Dilma-2 não emplaca. Aliás, juntinhos com a extrema-direita do país, que fez atos esvaziados no último fim-de-semana como se pode ver abaixo.  Talvez, em breve, vejamos os dois extremos se juntando contra Dilma. Seria ainda mais patético.



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Nada de preces para Showtrick - Cap. 3

Um comentário:
O expediente no Box Bank já havia acabado naquela calorenta tarde em Alafaya, mas numa mesa dos fundos da agência cinco pessoas acertavam um negócio, conversando quase por meio de sussurros.


- Não vai embora, Caccioli?, gritou da porta o penúltimo bancário saindo do trabalho.

- Não, Donald, estou terminando um último negócio aqui. Boa noite e bom descanso pra você, colega! Amanhã almoçamos na Fergie’s.

Subgerente no Box Bank, com autonomia para liberar financiamentos, Fortunato Caccioli pesquisava os olhares ladinos à sua frente de Salvatore, Nelly, Niels e de um corretor imobiliário curiosamente apelidado de “Graceland”.

Gerald “Graceland” Ipkiss era muito fã de Elvis Presley, daí o apelido alusivo à famosa mansão do cantor em Memphis, mas, considerando sua ocupação atual, a alcunha ficava dúbia – “terra da graça”. Mas não de graça. E ele sabia muito bem que interesses estavam em jogo naquela rodinha. Estava intermediando a transação do terreno da USCU entre Salvatore, Nelly e o comprador Niels, contando com a boa vontade do subgerente para liberar o financiamento sem maiores entraves burocráticos, tais como comprovações de renda de Niels e da esposa.

Salvatore resumiu a situação do negócio:

- Olha, Caccioli, acabamos de conseguir as assinaturas de outros diretores importantes da USCU no Termo de Retificação da Ata, que nos permite desmembrar o terreno e com isso vocês do banco financiarem os componentes legalizados 4 e 5 do total do imóvel. Niels vai logo nos passar 50 mil de entrada em cash, o seu Banco repassa 200 mil restantes ao Niels e ele nos paga a segunda parcela, ok?

- Tá certo, mas por favor, sigilo total sobre isto aqui. E o Niels tem que me pagar direitinho as prestações do financiamento estes meses próximos. Antes que a direção superior desconfie que o contrato não é perfeito.

Niels, sempre calado, murmurou um “pode deixar”. E acrescentou: “Minha mulher e eu viremos aqui assinar quando você chamar.”

- Fico no aguardo dos negócios posteriores com os componentes sobrantes do terreno, disse Caccioli. Só espero que isso não demore muito tempo.

- Com a valorização dessa área de Alafaya, não vai demorar para vendermos os lotes restantes, pode ficar tranquilo, asseverou Nelly, mais uma vez com seu sorrisinho falso.

- E o meu lotezinho também!, exclamou contidamente o corretor Graceland. Já tenho em mira um potencial comprador assim que finalizarmos tudo e eu ganhar essa minha comissão na forma desse lote.

Prosseguiram a conversa, acertando últimos detalhes para que nenhum furo ficasse, nenhum fio solto que permitisse a algum xereta chegar à meada da armação. No final, brindaram com goles de água mineral gasosa, a única coisa ainda bebível naquele fim de expediente num banco. 

Niels, Caccioli e Graceland iam ganhar o seu “de direito” pela colaboração, Salvatore e Nelly também iam se dar bem e – pensavam estes dois – os filiados da USCU iam todos ficar também contentes por finalmente terem-se livrado de um terreno tão “inútil” para a organização sindical.

Mas Salvatore estava eufórico e convidou para celebrar mais:

- Aí, pessoal, o negócio todo está encaminhado, graças a nossa capacidade e ousadia! Está um calor danado, e eu acho que a gente devia comemorar de verdade! Que tal irmos todos lá pra Orlando dar um rolé no show de strippers do “Black Cat”?

Os olhares dos outros brilharam de entusiasmo inicial pelo convite à farra, mas Niels e Caccioli desistiram, alegando compromissos com as respectivas “patroas”.

- E você, Graceland?, inquiriu Nelly, do alto de sua religiosidade pragmática.

- Olha, caras, esse lance está tão maneiro que vou nessa com vocês! Uhu!

Dali a três horas, era quase 9 da noite, estavam Salvatore, Nelly e Graceland aboletados numa mesa rústica, pedindo uns petiscos no famigerado “Black Cat”, o point de Orlando que só fechava às cinco da manhã com direito a variadas emoções.

[CONTINUA...]

sábado, 29 de novembro de 2014

A puta com doutorado

Um comentário:
Adaptado de um conto do cineasta Woody Allen, de quem estou na condição de fã irretratável, aqui vai uma historinha dele parodiada para solo brasileiro. Woody não ficará chateado de semiplagiá-lo descaradamente, inclusive porque ele também plagiou a seu jeito os irmãos Marx.

A PUTA COM DOUTORADO

Uma coisa que todo detetive particular deve aprender é acreditar nos próprios palpites. Assim, quando um sujeito divertidamente panaca, chamado Weverton Fallstaff adentrou meu escritório e pôs sua história na mesa, eu devia ter prestado atenção no calafrio que me percorreu a espinha.

- Max, ele perguntou, Max Pine?
- É o que diz na minha licença, respondi.
- Você tem que me ajudar! Estou sendo chantageado. Por favor!

Estava tremendo mais que as banhas de uma gorda de 200 quilos dançando a dança do ventre. Passei-lhe um copo sujo e uma garrafa de Natu Nobilis que deixo à mão para fins não-medicinais.

- Que tal se você relaxar e me der o serviço? Me conte tudo.
- Promete que... que não conta à minha mulher?
- Sou legal. Mas não posso fazer promessas, Fallstaff.

Tentou servir-se de uma dose, mas podia-se ouvir o barulho da garrafa contra o copo do outro lado da rua. Acabou derramando o uísque no sapato.

- Sou contador. Fabrico contabilidades falsas para pelegos em sindicatos. Sou bom nisso, ninguém desconfia. Você sabe.
- Sei. E daí?
- Essas contabilidades falsificadas são muito apreciadas por diretorias de sindicatos pelegos. Mas também pelas que se dizem radicais de esquerda. Até em sindicatos de universidades...
- Não enrole, vá logo ao assunto.
- Bem, o fato é que vivo viajando. Sinto-me só. Oh, nada do que você está pensando. Sabe, Max, no fundo eu sou um intelectual. Claro, um sujeito pode ter todas as bundas que quiser. Mas uma mulher inteligente, ah, isso é difícil de encontrar!
- Continue.
- Pois é. Aí ouvir falar de uma garota. Dezoito anos. Estudante da PUC. Por um certo preço ela sai com você e discute qualquer assunto – Marx, antropologia, Hannah Arendt, até Olavo de Carvalho. Troca de idéias entre dois adultos. Já viu aonde estou querendo chegar?
- Ainda não.
- Quero dizer, minha mulher é bacana, não me entenda mal. Mas jamais discutiria Caio Prado Jr. comigo. Nem Gilberto Freyre. Eu não sabia disso quando nos casamos. Sabe, preciso de uma mulher que me estimule intelectualmente, Max. E não me importo de pagar por isto. Não quero me envolver, quero só uma rápida experiência intelectual, e depois que a moça se mande. Porra, Max, sou feliz no casamento!
- Há quanto tempo isto vem acontecendo?, indaguei.
- Desde 2008. Quando estou muito a fim, telefono para Valerie. É uma cafetina com pós-graduação em literatura comparada. Aí ela me manda uma socióloga ou coisa assim. Entendeu?

Ele era um daqueles caras com um fraco pelas intelectuais. Senti pena do otário. Imaginei que devia haver bandos de trouxas como ele, ansiando por um pequeno intercâmbio cultural com o sexo oposto, dispostos a gastar uma nota.

- E agora ela está ameaçando contar tudo à minha mulher, disse o aflito Weverton.
- Quem?
- Valerie. Grampeou o telefone do motel e gravou minhas conversas com a moça. Em algumas fitas, discuto “Raízes do Brasil” ou “Casa Grande e Senzala”, e às vezes cheguei a colocar alguns pontos fundamentais. Se eu não pagar 200 mil reais, ela ameaça contar tudo a Carla. Pine, você tem que me ajudar! Carla morreria se soubesse que não sou ligado no cérebro dela!



A velha jogada. Já tinha ouvido rumores de que o pessoal lá na delegacia estava atrás de uma quadrilha de fenomenologistas, mas pensei que fosse cascata.

- Ponha Valerie no telefone.
- O quê?
- Aceito o caso, Fallstaff, mas são 200 reais por dia, mais as despesas. Você vai ter de arranjar mais fregueses pra sua contabilidade manipulada.
- Não me importo, respondeu Fallstaff. Pegou meu telefone e teclou um número. Passou-me o aparelho. Pisquei-lhe um olho, estava começando a gostar dele.

Dali a pouco uma voz doce como creme Nutella atendeu e eu disse o que queria:

- Ouvi dizer que você pode me descolar uma gata com um bom papo.
- Claro, amor, respondeu Valerie. Qual a sua área de preferência?
- A fim de discutir um pouco de FHC.
- Meio fora de moda, não acha? “Teoria da dependência” ou ensaios mais curtos?
- Qual é a diferença?, perguntei.
- O preço. Os artigos mais recentes depois da ascensão do PT ao governo são por fora, naturalmente.
- Em quanto vou ter de morrer?
- 200, talvez 300 reais por “Teoria da Dependência”. Quer uma discussão comparativa – digamos, entre Cardoso e Celso Furtado? Posso arranjar isto por 200 reais.
- Falou, finalizei eu. E lhe dei o número de um quarto no Hotel Los Angeles.
- Quer loura ou morena?
- Surpreenda-me, respondi e desliguei.

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Fiz a barba e tomei um pouco de café, enquanto ouvia pelo rádio a transmissão de uma partida de curling. Menos de uma hora depois, bateram à porta. Abri e vi uma loira espremida num suéter como duas grandes bolas de sorvete numa única casquinha.

- Oi, meu nome é Christine!
Eles realmente sabiam como apelar para suas fantasias. Cabelos loiros curtos e lisos, bolsa de couro, broche de um sindicato de universidade, sem maquiagem.

- Não sei como não foi presa entrando no hotel vestida desse jeito!, disse eu. O detetive daqui conhece uma intelectual pelo cheiro.
- Molhei a mão dele antes de subir.
- Vamos começar?, convidei-a para o sofá.

Acendeu um cigarro e foi direto ao assunto.

- Acho que podemos considerar a burguesia brasileira como basicamente tendo se conformado ao papel de subordinada num sistema hegemonizado pelas grandes potências capitalistas.
- Hum, sim, interessante, mas não num sentido Werneckiano.
Eu estava absolutamente chutando adoidado, mas queria ver se ela mordia a isca.

- Não, “História nova do Brasil” não tem essa subestrutura de aceitação do imperialismo.

Ela caíra no meu golpe.

- É isso aí, é isso aí! Pô, Christine, você tem razão!, exclamei.
- Acho que FHC reafirmava as virtudes do imperialismo americano de ajudar os países em desenvolvimento de uma maneira nova, mas ao mesmo tempo sofisticada, não acha?, pontuou Christine.

Fui dando-lhe corda. Ela mal tinha 20 anos, mas já dominava muitos truques do pseudo-intelectual. Falava com extrema fluência, mas era tudo mecânico. Quando eu propunha um problema, forjava uma resposta:

- Oh, sim, Max! Claro, isso é muito profundo. A compreensão socialdemocrata da via para o desenvolvimento... como não pensei nisso antes?

Conversamos durante uma hora e então ela me disse que tinha de ir. Levantou-se e estendi-lhe duas notas de cem.

- Obrigada, amor.
- E há muito mais de onde saíram essas.
- O que quer dizer com isso?

Eu tinha aguçado a curiosidade dela. Sentou-se de novo.

- Digamos que eu quisesse... dar uma festinha?, arrisquei.
- Que espécie de festa?
- Suponhamos que eu quisesse que duas garotas me explicassem Florestan Fernandes?
- Upa-la-lá!
- Não, acho bom você esquecer o que eu disse.
- Não, não, tudo bem, mas terá de falar com Valerie, respondeu Christine. Vai te custar uma nota!

Tinha chegado a hora de apertar as arruelas. Mostrei-lhe minha insígnia de investigador e lhe disse que tinha sido uma cilada.

- O quê?
- Sou um tira, meu bem, e você não está numa boa. Discutir neoliberalismo por dinheiro está no Código Penal. Você pode pegar uns meses.
- Seu FDP!
- Acho melhor se explicar, querida. A menos que queira contar sua história para um crítico literário. E não creio que vá gostar.
Ela começou a chorar:

- Não me entregue, Max. Precisava da grana pra completar meu doutorado na PUC. Recusaram-me bolsa duas vezes. Oh, meu deus!

Vomitou tudo, a história inteira. Família grã-fina de Curitiba. Passava as férias com o pessoal da esquerda festiva do PSTU. Podia ser vista em todas as sessões dos cinemas de arte. Viciada em escrever “É isso aí!” nas postagens de Zé Maria no site do PSTU. Mas agora tinha dado um passo em falso.

- Eu precisava de dinheiro. Uma amiga minha falou de um sujeito casado com uma mulher não muito profunda. Ele era vidrado em Lênin, mas sua mulher não estava nem aí. Eu disse que topava, podia discutir Lênin com ele, mas não de graça. A princípio, fiquei nervosa. Tive de chutar de montão. Ele não se importou... Ai, se isto continuar, não sei como vai ser!

- Leve-me a Valerie.
- Valerie se faz passar por dona de livraria, disse ela mordendo o lábio.
- É?
- Como aqueles traficantes que vendem pasteis nos botecos em volta das universidades. Você vai ver.

Dei um rápido telefonema para a delegacia e disse a Christine para não sair da cidade. Ela recostou sua cabeça em meu ombro e me disse languidamente: “Posso conseguir umas fotos do Dalton Trevisan, se quiser”.

- Fica pra outra vez, lindinha.

Fui à tal livraria. O balconista, rapaz de olhos sensíveis, perguntou se desejava algum livro em particular.

- Estou procurando uma primeira edição de “A retreta”. Ouvi dizer que nem Ariovaldo Peralta tem mais um exemplar. Deu-o à sua quinta mulher, quando lhe faltou dinheiro para pagar a pensão.
- Terei de checar. Temos o número secreto do telefone de Peralta.
- Oh, nesse caso, não quer ir até os fundos?

Apertou um botão. Uma estante falsa abriu-se e entrei como um babaca naquele palácio do prazer, mais conhecido como Valerie’s.

Paredes cobertas de papel pintalgado de vermelho, decoração quase vitoriana. Bandos de moças com óculos de aros de tartaruga, estendidas em sofás, folheavam furiosamente livros da coleção “Primeiros Passos” da editora Brasiliense. Uma loura com um belo sorriso piscou para mim com ar provocante, apontou para um quarto no segundo andar e perguntou: “Vamos falar de David Harvey?”. Mas a coisa não se limitava a experiências intelectuais: as emocionais também estavam em estoque. Fiquei sabendo que, por cem reais, você poderia “estabelecer uma relação com envolvimento”. Por 200 reais, a garota lhe emprestaria sua coleção de Villa Lobos, sairia com você para jantar e depois o deixaria olhar enquanto ela tivesse um ataque de existencialismo. Por 250 pilas você ouviria clássicos em FM ao lado de gêmeas com doutorado em poesia provençal. O quente custava 500 reais: uma recém-formada em Psicologia fingiria apanhá-lo no Museu do Olho, envolver-se-ia com você numa discussão freudiana sobre o conceito de mulher, deixá-lo-ia ler sua tese de doutorado e até encenaria um suicídio – para alguns, a idéia de uma noite perfeita. Belo negócio, este. E que cidade esta, Curitiba!

- Está gostando?, perguntou uma voz atrás de mim.

Virei-me e me vi de cara com o cano de um 38. Aliás, o pior lado de um 38. Podem crer: sou duro na queda, mas confesso que desta vez quase tive um colapso. Claro que era Valerie. A voz era a mesma. Só que Valerie era um homem. Seu rosto estava escondido por uma máscara.

- Você não vai acreditar, disse Valerie, mas não tenho nem o ensino médio. Fui reprovado tantas vezes que dei no pé da escola.
- Essa é a razão da máscara?

- Bolei um plano complicado, com o qual eu me apossaria da revista Veja, mas teria de me passar por Diogo Mainardi. Fui ao Paraguai fazer uma plástica. Há um médico em Asunción que transforma qualquer pessoa em Diogo Mainardi. Claro que custa caro. Mas algo saiu errado. Ele me fez parecido com Merval Pereira, só que com a voz de Joyce Hasselmann. Foi então que me passei para o outro lado da lei.

Ele ia puxar o gatilho. Mas fui mais rápido e entrei em ação. Curvei-me para a frente e acertei seu queixo com meu cotovelo, agarrando o revólver quando ele o soltou. Valerie foi ao chão como uma tonelada de coca do helicóptero dos aecistas Perrelas. Ainda choramingava quando a polícia chegou.

- Bom trabalho, Max, disse o sargento Pereira. Quando terminarmos nosso interrogatório, acho que a PF quer ter uma conversinha com ele sobre o caso Banestado. Algo a respeito de umas privatizações a preço de banana nos tempos de FHC. Podem levá-lo, rapazes.

Naquela mesma noite, dei um telefonema para uma velha conta bancária em meu nome, chamada Maria do Rocio. Era morena. Também tinha se formado cum laude. Só que em educação física. Tive de mostrar-lhe meu diploma.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

EUA votam na ONU contra o “combate à glorificação do nazismo”

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Enquanto se multiplicam os protestos nos Estados Unidos contra a decisão do júri que livrou de julgamento o policial que matou o jovem negro Michael Brown, que já levou mais de 400 pessoas à cadeia na cidade de Ferguson, no estado sulista do Missouri, e em outras regiões dos Estados Unidos por protestar, a diplomacia acaba de marcar um “golaço” na luta contra o racismo.

Por Fernando Brito, no Blog Tijolaço

Gol contra, fique claro.

É que na sexta-feira a Assembléia Geral da ONU votou uma declaração “contrária à glorificação do nazismo e outras práticas que contribuem para alimentar formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância”.

O resultado, claro, foi de aprovação esmagadora: 126 votos a favor e três contrários, com 50 abstenções.

Os três votos contrários?

Estados Unidos, Canadá (que sempre o acompanha) e o pequeno arquipélago de Palau, na Oceania, que se declarou “estado associado” aos EUA, embora 99% dos americanos nem saibam da existência daquelas ilhotas paradisíacas, que só viraram notícia por causa de um relatório que a apontou como maior consumidora de maconha per capita do mundo.

Para quem duvidar, está aqui a folha de votação, no site das Nações Unidas.

É bom saber, para quem duvidou da matéria da BBC, de que por lá se pagam pensões a acusados de crimes de guerra na Alemanha.

É impressionante como o isolacionismo diplomático dos Estados Unidos só é comparável ao seu intervencionismo bélico.

Um país que deu milhares de vidas ao enfrentar a Alemanha nazista, que é presidido por um negro, que se constituiu com imigrantes do mundo inteiro e que tem décadas de avanço em reconhecimento dos direitos de orientação sexual, votar contra uma resolução destas?

É, nada para desagradar a cada vez mais forte direita interna e que atrapalhe o flerte com os movimentos neonazistas no Leste Europeu (Albânia, Bósnia, Bulgária, Ucrânia, República Checa, Eslovênia e Hungria, entre outros, se abstiveram).

Parece o PSDB com os “pró-ditadura” da [Avenida] Paulista.
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Fonte: Texto e ilustração do Tijolaço, em 27/11/2014

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Palácio Iguaçu sob cerco de professores

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Educadores organizados pela APP-Sindicato deram abraço simbólico na Assembleia Legislativa, na manhã desta quarta-feira (26), em Curitiba, lembrando a violência física contra manifestantes no último dia 4 de novembro. Foi o dia em que o governo Beto Richa (PSDB) repetiu o governo Álvaro Dias ao massacrar professores no Paraná.

Em seguida, profissionais do magistério se postaram em frente ao Palácio Iguaçu, sede do executivo estadual, simulando votação democrática em urna para escolha de diretor de escola. O governo pôs fim ao processo eleitoral, com a complacência da Assembleia, ao prorrogar o mandato dos diretores até 31 de dezembro de 2015 (clique aqui).

No começo do mês, o presidente da Casa, Valdir Rossoni (PSDB), ordenou à segurança que desse uns sopapos nos professores que protestavam em favor da manutenção da eleição para diretor de escola. O tucano prometera, inclusive, condecorar os brutamontes pelo serviço.

As 2,1 mil escolas da rede pública do estado estão paralisadas hoje em virtude, também, de calotes do governo Beto Richa na categoria, que reivindica pagamento de avanços e progressões, melhoria no atendimento à saúde, etc.
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terça-feira, 25 de novembro de 2014

Diferenças entre militontos e militantes pró-Dilma

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O militonto recebe as decisões da presidente da República e não admite qualquer crítica. Quem ousar fazê-lo, é aliado objetivo da direita.  O militante não vacila em apoiar o governo e defender a presidente, especialmente diante da escalada reacionária. Mas não abdica do direito e do dever de pensar com a própria cabeça, criticando o que lhe parece errado na estratégia adotada e concebendo essa atitude como indispensável na ação política.

Por Breno Altman, no site Opera Mundi

O militonto tudo explica e justifica através de um pacote fechado e imutável: a correlação de forças no parlamento. Serve como uma espécie de álibi para defender o governo de qualquer crítica por adotar políticas conciliatórias, mesmo as que podem ser um tiro no pé.

O militante encara com seriedade a tal correlação de forças, mas com o objetivo de alterá-la a favor da esquerda. Sabe que negociações e composições são inevitáveis, necessárias, mas deseja forçá-las ao limite.

O militonto ficou acostumado a pensar correlação de forças apenas ou principalmente como uma questão institucional, parlamentar. A mobilização social e a luta de massas não entram de verdade em seu cálculos como hipótese para pressionar as instituições desde seu exterior.

O militante não descuida da governabilidade institucional. Mas aprendeu, nesses doze anos e várias crises, que também é imprescindível a construção de governabilidade social. Sabe, a propósito, que as maiorias parlamentares de orientação progressista somente foram formadas, na história do Brasil, quando o povo organizado e mobilizado obrigou o Parlamento a dançar sua música.

O militonto costuma achar que divide a esquerda quem entra em desacordo com ações do governo. Não admite que, às vezes, pode ser o governo quem divida a esquerda com suas ações.

O militante quer a unidade da esquerda e das forças progressistas. Mas acha que a pedra angular desse processo vai além de apoiar ou não o governo: depende de um programa unificador e de uma estratégia de coalizão do campo popular.

O militonto acha que o passado fornece crédito infinito, no presente e no futuro. Por tudo o que foi feito, e definitivamente não é pouco, o governo deveria ser defendido incondicionalmente e qualquer crítica seria descabida por princípio.

O militante reivindica os enormes avanços promovidos pelo governo e se mobiliza para defendê-los, mas não acha que o passado basta para garantir o presente e o futuro, que devem ser discutidos sempre com espírito crítico e aberto.

O militonto é superlativo e hiperbólico em relação aos líderes do governo e do partido. Sua frase estruturante: “eles sabem o que fazem…”

O militante respeita e admira os chefes históricos da esquerda, mas a vida já ensinou que também são passíveis de erros e confusões. Considera, portanto, que os instrumentos coletivos são mais qualificados que as clarividências individuais e esses só podem ser construídos pelo debate franco e desabrido de todos os temas.

O militonto é governista e acha que isso basta para resolver todos os problemas.

O militante defende o governo contra a direita, mas busca ser um revolucionário, um lutador social, para quem governar é apenas parte, ainda que imprescindível, de um processo estratégico mais amplo, o da transformação do país.
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Fonte: texto e foto de Breno Altman, em 24/11/2014