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quinta-feira, 23 de abril de 2015

Nada de preces para Showtrick - Capítulo 8

Um comentário:
- Ele descobriu o esquema, Showtrick - murmurou William Salvatore com o cenho franzido.
- Como? - duvidou Nelly enquanto futucava o ouvido com a tampa de uma caneta Bic.
- O Max Deutsch, eu não sei como, conseguiu a cópia do contrato fajuto de financiamento do Box Bank daquele buraco de Alafaya. Ali aparece que Niels Rifkin e esposa não comprovam renda para poder emprestar 200 mil dólares...
- Mas, ora, Salvatore, contratos assim esse tipo de banco às vezes faz.
- Mas dá na vista, né?
- Não fique grilado, cara, ainda tem muita coisa que pode ser enrolada. Só um contrato de banco não basta pra denunciar nada.
Salvatore grunhiu alguma coisa com sua voz de Pato Donald e resolveu concordar com Nelly Showtrick. Eles acreditavam no fundo que sempre se dariam bem.

******
Max precisava de mais documentos depois de ter obtido aquele curioso contrato do Box Bank. Foi até o cartório de Orlando onde costumeiramente a USCU registrava suas atas e encontrou mais um documento que atiçou sua curiosidade. Havia sido registrado ali, poucos dias antes da transação do imóvel de Alafaya, um “Termo de Retificação” assinado por Salvatore, Marla Menganini e outros diretores. Retificava o quê? Uma ata da assembleia de mais de 200 filiados que, meses antes, aprovava a venda do terreno, mas a retificação era para que o terreno pudesse ser desmembrado em seus doze componentes originais. Ué, mas qual a razão desse tipo de ação dos dirigentes da USCU? Tinha algo a ver com o esquema da venda, tinha que ter...

Tendo em mãos o jornal enganador da USCU feito por Marla, a escritura do cartório de Saint Cloud, o contrato do Box Bank mostrando incapacidade de renda do casal comprador e mais o tal "termo de retificação", Max pensou: “Isto já dá um dossiê, sobre o qual a direção da USCU vai ter muito que se explicar.” 

Alguns dias depois, tarde da noite, tiros atravessaram as janelas da casa de Max, que saiu da cama de rastros e foi até o canto da janela, de onde conseguiu ver um SUV preto arrancando da frente de sua casa. Não viu a placa, e é claro que ela estaria camuflada. Percebeu que o assunto estava ficando mais quente.  De manhã, retirou da frente de casa o pombo incauto estraçalhado por uma das balas.

******
A voz de Pato Donald de Salvatore ressoou de novo nos ouvidos cheios de cera de Showtrick: “Temos que mudar aquele preço de lote da escritura feita em Saint Cloud. Não vai encaixar no preço total declarado no nosso jornal, cara! Vamos lá em Saint Cloud arrumar isso, refazer a escritura pra não nos perturbarem!”

Os dois dirigentes sindicais foram até Saint Cloud mas o cartorário, num acesso de postura ética, apesar da grana oferecida e com medo de desmoralizar seu negócio, recusou-se a mudar os valores dos lotes. 

Pato Salvatore ficou indignado mas decidiu com seu ceruminoso comparsa Nelly Showtrick ir ao cartório de um velho conhecido em Orlando mesmo, onde refizeram a escritura de Saint Cloud atribuindo a cada lote vendido o valor subfaturado de 5 mil dólares (tinham sido comprados quatro anos antes por 16.500 dólares cada). Com isto, a soma dos valores encaixava com o valor total declarado como entrada no caixa da USCU (250 mil dólares, sendo 200 do financiamento do Box Bank e 50 mil por 10 lotes de 5 mil cada). “Aí, aquele chato do Max não terá mais por onde nos incomodar”, pensou o sindicalista mutreteiro.  Feito o negócio no cartório no fim da tarde, pegaram o carro da USCU e foram pra balada de Orlando.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Nada de preces para Showtrick - Cap. 7

Nenhum comentário:
- Pra que me enfiar em mais esta? Vamos desenterrando as maracutaias, e no fim de contas a gente sai incompreendido e mal falado... Max Deutsch cavoucava com um graveto a terra no jardim de casa enquanto matutava sobre a dúvida surgida no jornalzinho da USCU.

- O que eu ganho? Nada! Satisfação de botar a limpo uma possível mutreta feita com o dinheiro de meus colegas de trabalho da Universidade? Nem vão me agradecer, e ainda me chamarão de encrenqueiro.

Foi deitar, era tarde da noite, mas o assunto não saía da cabeça. Tinha que saber mais. Ficar na dúvida parecia pior que futuras consequências. Decidiu que ia cedo encontrar o cartório de lavra daquela escritura e só então conseguiu pegar no sono.

Manhã morna de outono, quase uma hora de ônibus de Orlando até St. Cloud, que ficava alguns quilômetros ao sul. Max levava o jornal da USCU com a foto da escritura do imóvel de Alafaya. Não demorou muito a achar o cartório único da cidadezinha onde tinha sido registrada a transação feita por Salvatore. Assim que viu as escrituras originais ficou ainda mais intrigado. Pagou cópias ao cartório e tomou rápido o ônibus de volta.

- Não consigo entender, pensava Max no trajeto de volta, tenho um jornal da USCU que me diz que os 12 componentes do imóvel foram vendidos por um total de 250 mil. As escrituras que xeroquei me falam só de 9 terrenos a um preço total de 162 mil, custando 18 mil cada um, e uma segunda escritura, para o corretor imobiliário, de um décimo terreno também de 18 mil. No total, 180 mil, por 10 terrenos. Mas e os componentes 4 e 5 do imóvel de que não se fala nestas escrituras?

De volta a Orlando, decidiu que iria a Alafaya tentar obter mais dados sobre a operação. Algo de fato cheirava estranho naquela papelada.  

sábado, 24 de janeiro de 2015

Nada de preces para Showtrick - Cap. 6

Um comentário:
A primavera envolvia a cidade de Orlando. Tudo parecia estar muito calmo, descontando as ocorrências policiais típicas de toda cidade grande. No gramado diante da sede da USCU os passarinhos pipilavam e brincavam entre si, destemorosos, desconhecendo o que ia pela cabeça dos humanos que se movimentavam dentro do prédio. Se soubessem, talvez desistissem de cantar.

Fazia já uns meses desde o trágico desaparecimento de John Dick no outono. Mas isso não alterou a rotina da USCU e de seus dirigentes principais. Salvatore e Showtrick preparavam uma grande recepção, um almoço, onde fariam sua tradicional demagogia com a massa de filiados mortos de fome e anunciariam a venda do imóvel de Alafaya como mais uma promessa de campanha cumprida.

- Marla, venha aqui na presidência, precisamos conversar sobre a nova edição do "USCU News"! – ordenou Salvatore pelo telefone à sala da imprensa.
- Me deixa terminar teu photoshop pra te deixar menos gordo na foto, Salvatore! Já chego aí...

Em dez minutos o presidente da USCU e sua diretora de imprensa estavam juntos discutindo as matérias do próximo jornal do sindicato, definindo que seria distribuído no grande convescote marcado para dali a 10 dias. Era essencial demonstrar que a diretoria, conforme prometera aos filiados, tinha efetivado a promessa de se livrar do imóvel de Alafaya e tinha sido por um bom preço. Mais um ponto para a gestão de Salvatore. Marla, apesar de seus secretos planos pessoais, colaborava para enaltecer seu chefe e iria fazer um jornal conforme a encomenda para produzir ilusões na categoria. Jornalismo não era, era política, e nisso os escrúpulos dela ficavam guardados na geladeira de casa.

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- Marla, estou meio cabreiro ainda com essa história da venda de Alafaya e essa morte esquisita do Dick... O que lhe disse Salvatore?, perguntou Joey, parado na pia do banheiro onde escovava os dentes, de cuecas.
- Cacete, Joey, você está com essa mesma cueca há uma semana! Joga no cesto de roupa pra lavar!!
- Tá OK, eu troco a cueca, mas ouviu o que eu falei da USCU?
- Ouvi, sim, claro, tem umas coisas estranhas, mas temos que ir em frente com nosso plano, certo? Isso é rolo do Salvatore e do Showtrick, não temos que nos meter, vamos fazer só o que pedirem e pronto. Não somos responsáveis, não seremos.
- Isso é o que eu não sei, afinal botamos nossas assinaturas em alguns documentos...
- Porra, escova logo esse dente e vem deitar.

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Manhã ensolarada de primavera aquela em que a USCU realizou seu almoço de confraternização dos filiados. Chegando ao amplo salão onde acontecia a comilança, cada trabalhador recebia um exemplar do jornal da USCU. O grande destaque na publicação era a venda do terreno de Alafaya, cujo texto trazia como ilustração um fac-simile de um trecho da escritura de venda, sob o carimbo de “promessa cumprida”.

O ambiente estava bastante festivo, o ar preenchido pelo som de risadas e de talheres em ação. Salvatore, Showtrick, Marla, Joey e outros dirigentes da USCU estavam exultantes com o sucesso do almoço, mais seguros de si do que nunca. A morte de John tinha já ficado para trás. Entre um gole e outro de uísque especial “para a diretoria”, ironizavam os poucos membros da oposição sindical ali presentes. De fato, estavam no auge da popularidade, ainda que por baixo daquela sede social corresse um rio de excremento.

**********
- Tem coisa aqui?, pensou Max Deutsch em casa enquanto passava e repassava a matéria escrita por Marla  Menganini sobre a venda do terreno de Alafaya no " USCU News", o jornal da União de Servidores..

Max foi ao almoço de confraternização da USCU, pegou o jornal e ficou contemplando a desenvoltura alegre dos dirigentes sindicais, enquanto mantinha um sorriso irônico no canto da boca. Guardou o jornal no bolso de trás da calça, cumprimentou um monte de amigos, fez sua refeição e foi embora cedo.

Em casa, sacou do bolso o jornal e reexaminou a matéria sobre o imóvel de Alafaya. Com os olhos postos na ilustração da escritura, de repente uma interrogação lhe veio ao pensamento. A foto da escritura era parcial, mas... Mas por que diabos a venda de um terreno situado em Alafaya, a leste de Orlando, tinha sido registrada num cartório da cidadezinha de St. Cloud, ao sul? Por que não na própria Alafaya ou mesmo em Orlando? A dúvida cresceu na cabeça de Max e ele passou a desconfiar daquela transação. Resolveu tirar a limpo sua dúvida e iria nos próximos dias ao cartório de St. Cloud para averiguar, se possível pegar uma cópia da escritura inteira. Não fazia então ideia da quantidade de coisas esquisitas que iria desvelar.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Nada de preces para Showtrick - Cap. 5

Nenhum comentário:
- Está feito e acho que não deixamos rastros.
- Me sinto triste, apesar das bobeiras, ele era um cara legal. Não entendo por que deu aquela vacilada.
- Ele andava ligado demais à igreja dele, pode ter influenciado.
- E daí, você é um cara de igreja, você é um “obreiro” dessa porra dessa tua igreja evangélica!
- Calma, calma, em nossa igreja separamos as coisas da terra e as do espírito...
- Porra, o que eu sei é que o cara saiu desta terra e agora no máximo é um espírito! E o espírito dele não te incomoda? E a família do cara que apagamos?
- Eu sei, eu sei, mas afinal de contas foi para um bem maior, não é? Se o cara desse com a língua nos dentes pra polícia, pra Receita, ou até pra gente da oposição, aí a coisa ia ficar feia pra nós, pra todos, pra nossos próprios filiados que precisam de uma administração equilibrada!  Vamos rezar pela alma de nosso bom vacilão John Dick!

Diante desse argumento racionalizador, o presidente relaxou um pouco.  Sentiu menos a perda de seu principal tesoureiro, ao lado de quem já tinha feito tantas lutas na Clínica Geral da universidade dez anos antes.  Sua disposição voltou, o negócio era ir adiante. O morto tinha que virar passado. Enterrado e abolido da memória.  Até a Polícia já estava dando o crime como de difícil solução e ninguém havia chegado na USCU para maiores investigações, além de uma visita para perguntas protocolares.  Tudo ia bem e tudo iria bem.

Em breve a transação imobiliária seria anunciada para a multidão ignara dos filiados, num grande almoço pago pelos próprios, mas com aparência de “boca livre”, é claro. O presidente ligou para Marla pedindo uma matéria especial para o jornal da USCU  anunciando o negócio concluído. Depois, emborcou mais uma dose de JB, murmurando frases obscenas e encomendando alguém do serviço de acompanhantes de Daytona Beach.


sábado, 20 de dezembro de 2014

Nada de preces para Showtrick - Cap. 4

Um comentário:
Agosto, amanhecia em Daytona Beach, quando as águas do Atlântico Norte entregaram à areia um estranho volume.  Marla e Joey, de volta à praia, tinham o hábito de levantar cedo para correr pela praia, e estacaram ofegantes diante daquele cadáver cujos olhos já tinham sido comidos pelos peixes ou pelas gaivotas.

- Ah, meu deus, que coisa horrível!!!!, exclamou Marla olhando para o molambo encharcado ainda lambido pelas ondas.  Esse aí está parecendo o... o...

- O John Dick, nosso tesoureiro da USCU, Marla, completou Joey perplexo.  Mesmo sem aqueles olhos idiotas, não há como não reconhecer que é ele mesmo!  Que diabos aconteceu?

- Ai, que triste e que nojo, Joey! Temos que avisar a polícia...

- Não, não, não...

- Como não?

- Não vamos nos envolver com isto, vamos embora, não tem ninguém na praia, ninguém olhando, vamos em frente e fingir que nem vimos isto.  Vamos, vamos!

- Mmmmas, Joey, é nosso colega, faz poucas semanas estivemos reunidos com ele lá em Orlando! Temos que fazer algo!

- Ele está morto, Marla, não podemos fazer mais nada, e não podemos nos envolver neste rolo. Não quero papo com polícia, vamos embora!  Depois ligamos pra Salvatore.

Marla, chocada e enxugando lágrimas sinceras, relutou mas acompanhou o marido.

O casal se afastou celeremente, olhando para os lados e para a avenida beira-mar, acreditando-se não percebido, sob as vistas apenas das aves marinhas que deviam pressentir no morto um cardápio diferente dos peixes e crustáceos habituais.

Os restos ensopados de Dick, com cinco buracos de bala no peito e na barriga, ainda ficaram à mercê das pequenas ondas de beira-mar e das gaivotas por mais uma hora até que a polícia foi avisada e chegou a equipe da perícia para examinar o que sobrara do velho dirigente sindical.

**********************

- Joey, aquilo foi horrível! Como pode ter acontecido? Marla debatia-se na cama, esperando o efeito do calmante que Joey lhe havia dado.

- Não faço ideia.  Notou que ele foi baleado?  Tinha uns três furos de bala no peito.  Alguém apagou o cara. Não sei por quê.  Um sujeito tão legal e bonachão. Meio burro e devagar, é verdade, mas legal.  Sempre nos tratou bem. Fico com pena.  Mas é melhor esquecer.

- Avisou Salvatore e os outros?  Eles tem que saber, afinal era o tesoureiro do nosso sindicato!

- Ainda não, vou ligar agora. Você trate de se acalmar, e durma um pouco.

Joey pegou o celular e ligou para Orlando, no número de Salvatore.  Ocupado. Ligou para Nelly.  Ocupado também.

- Atendam! Que saco!

******************************
John Dick, antigo enfermeiro da Clínica Geral da Corners University, havia certo tempo que se tornara um burocrata do sindicato.  Não cheirava nem fedia, era um pouco atoleimado, às vezes fazia vistas grossas para umas mutretas de Salvatore, por vezes participava da divisão do “bolo”.  Estava por dentro dos rolos, inclusive por ser tesoureiro.  Tinha sua parte e não costumava encher o saco. Mas era um arquivo sobre duas pernas.  Teria aberto algum jogo perigoso?

Certa vez, tendo brigado com Salvatore, contou a estagiários de um jornal-laboratório da Universidade sobre uma mutreta praticada pelo colega de sindicato, e aquilo foi publicado, ainda que sem citar nomes. Salvatore havia escondido seu próprio carro na garagem de um amigo e dera parte de roubo para receber o valor do seguro. Recebeu o seguro, com o qual comprou um carro novo, e tempos depois o carro supostamente roubado foi achado pela polícia.  Mas então o rolo estava feito, com sucesso.  Dick revelou o estratagema, provocando a ira de Salvatore e por um bom tempo os dois não se conversaram.  Entretanto, o caso não rendeu nenhum problema para Salvatore e tudo voltou às boas entre eles.

Agora, porém, algo diferente tinha acontecido.  Teria a ver com a transação do terreno da USCU?  Ou era outra coisa dentro do sindicato?  Podia também ser mera fatalidade, um assalto...

A unidade CSI que examinou Dick constatou que ele morreu pelos disparos de arma de fogo no tórax e depois foi jogado ao mar, pois não tinha água nos pulmões.  E havia sido na noite que antecedeu seu achado na praia pelo casal Marla/Joey.  O corpo não tinha outros sinais, nos bolsos somente alguns dólares e o documento de identidade.  Caso difícil. Mas era preciso investigar as relações do morto em Orlando e em Daytona. 
[CONTINUA...]

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Nada de preces para Showtrick - Cap. 3

Um comentário:
O expediente no Box Bank já havia acabado naquela calorenta tarde em Alafaya, mas numa mesa dos fundos da agência cinco pessoas acertavam um negócio, conversando quase por meio de sussurros.


- Não vai embora, Caccioli?, gritou da porta o penúltimo bancário saindo do trabalho.

- Não, Donald, estou terminando um último negócio aqui. Boa noite e bom descanso pra você, colega! Amanhã almoçamos na Fergie’s.

Subgerente no Box Bank, com autonomia para liberar financiamentos, Fortunato Caccioli pesquisava os olhares ladinos à sua frente de Salvatore, Nelly, Niels e de um corretor imobiliário curiosamente apelidado de “Graceland”.

Gerald “Graceland” Ipkiss era muito fã de Elvis Presley, daí o apelido alusivo à famosa mansão do cantor em Memphis, mas, considerando sua ocupação atual, a alcunha ficava dúbia – “terra da graça”. Mas não de graça. E ele sabia muito bem que interesses estavam em jogo naquela rodinha. Estava intermediando a transação do terreno da USCU entre Salvatore, Nelly e o comprador Niels, contando com a boa vontade do subgerente para liberar o financiamento sem maiores entraves burocráticos, tais como comprovações de renda de Niels e da esposa.

Salvatore resumiu a situação do negócio:

- Olha, Caccioli, acabamos de conseguir as assinaturas de outros diretores importantes da USCU no Termo de Retificação da Ata, que nos permite desmembrar o terreno e com isso vocês do banco financiarem os componentes legalizados 4 e 5 do total do imóvel. Niels vai logo nos passar 50 mil de entrada em cash, o seu Banco repassa 200 mil restantes ao Niels e ele nos paga a segunda parcela, ok?

- Tá certo, mas por favor, sigilo total sobre isto aqui. E o Niels tem que me pagar direitinho as prestações do financiamento estes meses próximos. Antes que a direção superior desconfie que o contrato não é perfeito.

Niels, sempre calado, murmurou um “pode deixar”. E acrescentou: “Minha mulher e eu viremos aqui assinar quando você chamar.”

- Fico no aguardo dos negócios posteriores com os componentes sobrantes do terreno, disse Caccioli. Só espero que isso não demore muito tempo.

- Com a valorização dessa área de Alafaya, não vai demorar para vendermos os lotes restantes, pode ficar tranquilo, asseverou Nelly, mais uma vez com seu sorrisinho falso.

- E o meu lotezinho também!, exclamou contidamente o corretor Graceland. Já tenho em mira um potencial comprador assim que finalizarmos tudo e eu ganhar essa minha comissão na forma desse lote.

Prosseguiram a conversa, acertando últimos detalhes para que nenhum furo ficasse, nenhum fio solto que permitisse a algum xereta chegar à meada da armação. No final, brindaram com goles de água mineral gasosa, a única coisa ainda bebível naquele fim de expediente num banco. 

Niels, Caccioli e Graceland iam ganhar o seu “de direito” pela colaboração, Salvatore e Nelly também iam se dar bem e – pensavam estes dois – os filiados da USCU iam todos ficar também contentes por finalmente terem-se livrado de um terreno tão “inútil” para a organização sindical.

Mas Salvatore estava eufórico e convidou para celebrar mais:

- Aí, pessoal, o negócio todo está encaminhado, graças a nossa capacidade e ousadia! Está um calor danado, e eu acho que a gente devia comemorar de verdade! Que tal irmos todos lá pra Orlando dar um rolé no show de strippers do “Black Cat”?

Os olhares dos outros brilharam de entusiasmo inicial pelo convite à farra, mas Niels e Caccioli desistiram, alegando compromissos com as respectivas “patroas”.

- E você, Graceland?, inquiriu Nelly, do alto de sua religiosidade pragmática.

- Olha, caras, esse lance está tão maneiro que vou nessa com vocês! Uhu!

Dali a três horas, era quase 9 da noite, estavam Salvatore, Nelly e Graceland aboletados numa mesa rústica, pedindo uns petiscos no famigerado “Black Cat”, o point de Orlando que só fechava às cinco da manhã com direito a variadas emoções.

[CONTINUA...]

sábado, 29 de novembro de 2014

A puta com doutorado

Um comentário:
Adaptado de um conto do cineasta Woody Allen, de quem estou na condição de fã irretratável, aqui vai uma historinha dele parodiada para solo brasileiro. Woody não ficará chateado de semiplagiá-lo descaradamente, inclusive porque ele também plagiou a seu jeito os irmãos Marx.

A PUTA COM DOUTORADO

Uma coisa que todo detetive particular deve aprender é acreditar nos próprios palpites. Assim, quando um sujeito divertidamente panaca, chamado Weverton Fallstaff adentrou meu escritório e pôs sua história na mesa, eu devia ter prestado atenção no calafrio que me percorreu a espinha.

- Max, ele perguntou, Max Pine?
- É o que diz na minha licença, respondi.
- Você tem que me ajudar! Estou sendo chantageado. Por favor!

Estava tremendo mais que as banhas de uma gorda de 200 quilos dançando a dança do ventre. Passei-lhe um copo sujo e uma garrafa de Natu Nobilis que deixo à mão para fins não-medicinais.

- Que tal se você relaxar e me der o serviço? Me conte tudo.
- Promete que... que não conta à minha mulher?
- Sou legal. Mas não posso fazer promessas, Fallstaff.

Tentou servir-se de uma dose, mas podia-se ouvir o barulho da garrafa contra o copo do outro lado da rua. Acabou derramando o uísque no sapato.

- Sou contador. Fabrico contabilidades falsas para pelegos em sindicatos. Sou bom nisso, ninguém desconfia. Você sabe.
- Sei. E daí?
- Essas contabilidades falsificadas são muito apreciadas por diretorias de sindicatos pelegos. Mas também pelas que se dizem radicais de esquerda. Até em sindicatos de universidades...
- Não enrole, vá logo ao assunto.
- Bem, o fato é que vivo viajando. Sinto-me só. Oh, nada do que você está pensando. Sabe, Max, no fundo eu sou um intelectual. Claro, um sujeito pode ter todas as bundas que quiser. Mas uma mulher inteligente, ah, isso é difícil de encontrar!
- Continue.
- Pois é. Aí ouvir falar de uma garota. Dezoito anos. Estudante da PUC. Por um certo preço ela sai com você e discute qualquer assunto – Marx, antropologia, Hannah Arendt, até Olavo de Carvalho. Troca de idéias entre dois adultos. Já viu aonde estou querendo chegar?
- Ainda não.
- Quero dizer, minha mulher é bacana, não me entenda mal. Mas jamais discutiria Caio Prado Jr. comigo. Nem Gilberto Freyre. Eu não sabia disso quando nos casamos. Sabe, preciso de uma mulher que me estimule intelectualmente, Max. E não me importo de pagar por isto. Não quero me envolver, quero só uma rápida experiência intelectual, e depois que a moça se mande. Porra, Max, sou feliz no casamento!
- Há quanto tempo isto vem acontecendo?, indaguei.
- Desde 2008. Quando estou muito a fim, telefono para Valerie. É uma cafetina com pós-graduação em literatura comparada. Aí ela me manda uma socióloga ou coisa assim. Entendeu?

Ele era um daqueles caras com um fraco pelas intelectuais. Senti pena do otário. Imaginei que devia haver bandos de trouxas como ele, ansiando por um pequeno intercâmbio cultural com o sexo oposto, dispostos a gastar uma nota.

- E agora ela está ameaçando contar tudo à minha mulher, disse o aflito Weverton.
- Quem?
- Valerie. Grampeou o telefone do motel e gravou minhas conversas com a moça. Em algumas fitas, discuto “Raízes do Brasil” ou “Casa Grande e Senzala”, e às vezes cheguei a colocar alguns pontos fundamentais. Se eu não pagar 200 mil reais, ela ameaça contar tudo a Carla. Pine, você tem que me ajudar! Carla morreria se soubesse que não sou ligado no cérebro dela!



A velha jogada. Já tinha ouvido rumores de que o pessoal lá na delegacia estava atrás de uma quadrilha de fenomenologistas, mas pensei que fosse cascata.

- Ponha Valerie no telefone.
- O quê?
- Aceito o caso, Fallstaff, mas são 200 reais por dia, mais as despesas. Você vai ter de arranjar mais fregueses pra sua contabilidade manipulada.
- Não me importo, respondeu Fallstaff. Pegou meu telefone e teclou um número. Passou-me o aparelho. Pisquei-lhe um olho, estava começando a gostar dele.

Dali a pouco uma voz doce como creme Nutella atendeu e eu disse o que queria:

- Ouvi dizer que você pode me descolar uma gata com um bom papo.
- Claro, amor, respondeu Valerie. Qual a sua área de preferência?
- A fim de discutir um pouco de FHC.
- Meio fora de moda, não acha? “Teoria da dependência” ou ensaios mais curtos?
- Qual é a diferença?, perguntei.
- O preço. Os artigos mais recentes depois da ascensão do PT ao governo são por fora, naturalmente.
- Em quanto vou ter de morrer?
- 200, talvez 300 reais por “Teoria da Dependência”. Quer uma discussão comparativa – digamos, entre Cardoso e Celso Furtado? Posso arranjar isto por 200 reais.
- Falou, finalizei eu. E lhe dei o número de um quarto no Hotel Los Angeles.
- Quer loura ou morena?
- Surpreenda-me, respondi e desliguei.

************************

Fiz a barba e tomei um pouco de café, enquanto ouvia pelo rádio a transmissão de uma partida de curling. Menos de uma hora depois, bateram à porta. Abri e vi uma loira espremida num suéter como duas grandes bolas de sorvete numa única casquinha.

- Oi, meu nome é Christine!
Eles realmente sabiam como apelar para suas fantasias. Cabelos loiros curtos e lisos, bolsa de couro, broche de um sindicato de universidade, sem maquiagem.

- Não sei como não foi presa entrando no hotel vestida desse jeito!, disse eu. O detetive daqui conhece uma intelectual pelo cheiro.
- Molhei a mão dele antes de subir.
- Vamos começar?, convidei-a para o sofá.

Acendeu um cigarro e foi direto ao assunto.

- Acho que podemos considerar a burguesia brasileira como basicamente tendo se conformado ao papel de subordinada num sistema hegemonizado pelas grandes potências capitalistas.
- Hum, sim, interessante, mas não num sentido Werneckiano.
Eu estava absolutamente chutando adoidado, mas queria ver se ela mordia a isca.

- Não, “História nova do Brasil” não tem essa subestrutura de aceitação do imperialismo.

Ela caíra no meu golpe.

- É isso aí, é isso aí! Pô, Christine, você tem razão!, exclamei.
- Acho que FHC reafirmava as virtudes do imperialismo americano de ajudar os países em desenvolvimento de uma maneira nova, mas ao mesmo tempo sofisticada, não acha?, pontuou Christine.

Fui dando-lhe corda. Ela mal tinha 20 anos, mas já dominava muitos truques do pseudo-intelectual. Falava com extrema fluência, mas era tudo mecânico. Quando eu propunha um problema, forjava uma resposta:

- Oh, sim, Max! Claro, isso é muito profundo. A compreensão socialdemocrata da via para o desenvolvimento... como não pensei nisso antes?

Conversamos durante uma hora e então ela me disse que tinha de ir. Levantou-se e estendi-lhe duas notas de cem.

- Obrigada, amor.
- E há muito mais de onde saíram essas.
- O que quer dizer com isso?

Eu tinha aguçado a curiosidade dela. Sentou-se de novo.

- Digamos que eu quisesse... dar uma festinha?, arrisquei.
- Que espécie de festa?
- Suponhamos que eu quisesse que duas garotas me explicassem Florestan Fernandes?
- Upa-la-lá!
- Não, acho bom você esquecer o que eu disse.
- Não, não, tudo bem, mas terá de falar com Valerie, respondeu Christine. Vai te custar uma nota!

Tinha chegado a hora de apertar as arruelas. Mostrei-lhe minha insígnia de investigador e lhe disse que tinha sido uma cilada.

- O quê?
- Sou um tira, meu bem, e você não está numa boa. Discutir neoliberalismo por dinheiro está no Código Penal. Você pode pegar uns meses.
- Seu FDP!
- Acho melhor se explicar, querida. A menos que queira contar sua história para um crítico literário. E não creio que vá gostar.
Ela começou a chorar:

- Não me entregue, Max. Precisava da grana pra completar meu doutorado na PUC. Recusaram-me bolsa duas vezes. Oh, meu deus!

Vomitou tudo, a história inteira. Família grã-fina de Curitiba. Passava as férias com o pessoal da esquerda festiva do PSTU. Podia ser vista em todas as sessões dos cinemas de arte. Viciada em escrever “É isso aí!” nas postagens de Zé Maria no site do PSTU. Mas agora tinha dado um passo em falso.

- Eu precisava de dinheiro. Uma amiga minha falou de um sujeito casado com uma mulher não muito profunda. Ele era vidrado em Lênin, mas sua mulher não estava nem aí. Eu disse que topava, podia discutir Lênin com ele, mas não de graça. A princípio, fiquei nervosa. Tive de chutar de montão. Ele não se importou... Ai, se isto continuar, não sei como vai ser!

- Leve-me a Valerie.
- Valerie se faz passar por dona de livraria, disse ela mordendo o lábio.
- É?
- Como aqueles traficantes que vendem pasteis nos botecos em volta das universidades. Você vai ver.

Dei um rápido telefonema para a delegacia e disse a Christine para não sair da cidade. Ela recostou sua cabeça em meu ombro e me disse languidamente: “Posso conseguir umas fotos do Dalton Trevisan, se quiser”.

- Fica pra outra vez, lindinha.

Fui à tal livraria. O balconista, rapaz de olhos sensíveis, perguntou se desejava algum livro em particular.

- Estou procurando uma primeira edição de “A retreta”. Ouvi dizer que nem Ariovaldo Peralta tem mais um exemplar. Deu-o à sua quinta mulher, quando lhe faltou dinheiro para pagar a pensão.
- Terei de checar. Temos o número secreto do telefone de Peralta.
- Oh, nesse caso, não quer ir até os fundos?

Apertou um botão. Uma estante falsa abriu-se e entrei como um babaca naquele palácio do prazer, mais conhecido como Valerie’s.

Paredes cobertas de papel pintalgado de vermelho, decoração quase vitoriana. Bandos de moças com óculos de aros de tartaruga, estendidas em sofás, folheavam furiosamente livros da coleção “Primeiros Passos” da editora Brasiliense. Uma loura com um belo sorriso piscou para mim com ar provocante, apontou para um quarto no segundo andar e perguntou: “Vamos falar de David Harvey?”. Mas a coisa não se limitava a experiências intelectuais: as emocionais também estavam em estoque. Fiquei sabendo que, por cem reais, você poderia “estabelecer uma relação com envolvimento”. Por 200 reais, a garota lhe emprestaria sua coleção de Villa Lobos, sairia com você para jantar e depois o deixaria olhar enquanto ela tivesse um ataque de existencialismo. Por 250 pilas você ouviria clássicos em FM ao lado de gêmeas com doutorado em poesia provençal. O quente custava 500 reais: uma recém-formada em Psicologia fingiria apanhá-lo no Museu do Olho, envolver-se-ia com você numa discussão freudiana sobre o conceito de mulher, deixá-lo-ia ler sua tese de doutorado e até encenaria um suicídio – para alguns, a idéia de uma noite perfeita. Belo negócio, este. E que cidade esta, Curitiba!

- Está gostando?, perguntou uma voz atrás de mim.

Virei-me e me vi de cara com o cano de um 38. Aliás, o pior lado de um 38. Podem crer: sou duro na queda, mas confesso que desta vez quase tive um colapso. Claro que era Valerie. A voz era a mesma. Só que Valerie era um homem. Seu rosto estava escondido por uma máscara.

- Você não vai acreditar, disse Valerie, mas não tenho nem o ensino médio. Fui reprovado tantas vezes que dei no pé da escola.
- Essa é a razão da máscara?

- Bolei um plano complicado, com o qual eu me apossaria da revista Veja, mas teria de me passar por Diogo Mainardi. Fui ao Paraguai fazer uma plástica. Há um médico em Asunción que transforma qualquer pessoa em Diogo Mainardi. Claro que custa caro. Mas algo saiu errado. Ele me fez parecido com Merval Pereira, só que com a voz de Joyce Hasselmann. Foi então que me passei para o outro lado da lei.

Ele ia puxar o gatilho. Mas fui mais rápido e entrei em ação. Curvei-me para a frente e acertei seu queixo com meu cotovelo, agarrando o revólver quando ele o soltou. Valerie foi ao chão como uma tonelada de coca do helicóptero dos aecistas Perrelas. Ainda choramingava quando a polícia chegou.

- Bom trabalho, Max, disse o sargento Pereira. Quando terminarmos nosso interrogatório, acho que a PF quer ter uma conversinha com ele sobre o caso Banestado. Algo a respeito de umas privatizações a preço de banana nos tempos de FHC. Podem levá-lo, rapazes.

Naquela mesma noite, dei um telefonema para uma velha conta bancária em meu nome, chamada Maria do Rocio. Era morena. Também tinha se formado cum laude. Só que em educação física. Tive de mostrar-lhe meu diploma.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Nada de preces para Showtrick - cap. 1

Um comentário:

- Nelly, temos que vender de qualquer jeito esse imóvel em Alafaya.

- Andei tendo umas idéias, Salvatore... acho que podemos vender e ainda nos darmos bem.

William Salvatore, coordenador-chefe da União de Servidores da Corners University (USCU) em Orlando, Flórida, espichou o pescoço para ouvir melhor seu colega vice-coordenador. Afinal, Nelly Showtrick era escolado em transações imobiliárias, já tinha vendido lotes de solo esturricado no deserto de Nevada para otários caipiras de Minnesota.

Alafaya era uma cidadezinha a meia hora de carro a leste de Orlando, onde a União de Servidores possuía um terreno sem uso. Aliás, comprado por Nelly havia uns quatro anos em mais uma de suas especiais negociações com o caixa semifalido da USCU. Desde então os filiados da União cobravam que era preciso dar uma utilidade para o tal imóvel ou vende-lo por bom preço. A cidade de Alafaya tinha recebido algumas benfeitorias do governo Bush Jr. e aquele terreno devia estar valendo bem mais do que na época da negociata conduzida por Nelly.

- Conheço um sujeito sangue-bom em Alafaya, prosseguiu Nelly, que pode nos ajudar servindo de comprador desse terreno, cara. Ele é patrulheiro rodoviário, ganha pouco, mas podemos dar um jeito de providenciar uma grana a mais pra ele ser um tipo de “laranja” no negócio.

- Como? Salvatore ficou ainda mais curioso sobre a estratégia.

- No Box Bank de Alafaya tem outro conhecido meu, funcionário de alto escalão, que responde pela análise de financiamentos. Acho que ele pode também nos dar uma ajudinha, piscou Nelly esticando a boca num sorriso maroto.

- Hum, e uma ajudinha ao nosso alaranjado patrulheiro... Acho que começo a entender. Como é o nome dele?

- Niels Rifkin, ele e sua esposa, um casal adorável. Niels, o nome é assim por uma homenagem do pai dele ao físico Niels Bohr, aquele da teoria do modelo do átomo.

- Ahn, não sou muito versado em Física, desconversou Salvatore. E os demais detalhes do plano?

Nelly empertigou-se na poltrona e começou a expor sua ideia.

- Combinamos com Niels e esposa para se apresentarem como compradores do terreno da USCU. Falamos com o funcionário do Box Bank de Alafaya para ele liberar um financiamento de 200 mil dólares para o casal mesmo sem comprovação de renda do Niels. Mas pra sair o financiamento será preciso uma avaliação do valor de mercado, que temos já para dois componentes do terreno total, só esses dois estão valendo os duzentos mil do financiamento. E Niels ainda nos antecipará 50 mil dólares em cash de sinal num “deal” de compra e venda... 

- Mas esses 250 mil só quitam dois componentes do imóvel... e os outros dez lotes?

- Os outros dez não tem o mesmo valor, compramos por 16 mil dólares anos atrás, mas agora estão valendo bem mais, com certeza.

- Ah! - Salvatore estalou os dedos - saquei o pulo do gato! Contabilizamos 250 mil como entrada de receita no caixa da USCU como o valor de venda total do terreno, mas os outros dez componentes do imóvel a gente pode deixar numa “reserva especial” nossa, escondidinha, pra combinar futuras vendas em parceria com o companheiro Niels...

- Precisamente, Salvatore! Dá aqui um “hi-five”! Pra que é que serve mesmo a nossa inteligência? Pra ajudar os homens de bem!

- Os homens de bem e de bens!

- Só que ainda tem alguns detalhes a resolver antes de botarmos a mão na massa pra valer...

[CONTINUA...]