Novas mensagens encontradas no celular do ex-dono do Banco Master colocam a grande imprensa brasileira no olho do furacão do escândalo. CEOs da Globo e do Metrópoles comiam na mão de Daniel Vorcaro e tentavam agradá-lo de todas as maneiras.
João Filho - Intercept Brasil * 17/10/2026
João Filho - Intercept Brasil * 17/10/2026
Não é novidade que boa parte do jornalismo brasileiro funciona a reboque de interesses financeiros, mas o WhatsApp do Vorcaro revelou ao público as entranhas de como as salsichas são fabricadas na grande imprensa. O departamento comercial é quem dá as cartas no jornalismo e tem poder para influenciar os rumos do país.
Enquanto o escândalo do Master se desenrolava, Vorcaro dava ordens para os CEOs dessas empresas, que prontamente se mobilizavam para atendê-las. O ex-banqueiro encomendava reportagens, editava textos, escolhia manchetes e reclamava quando as coisas não saíam como ele queria. A expressão "quem paga escolhe a música”cabe perfeitamente.
Em 2025, a safadeza de Vorcaro já era de conhecimento geral, principalmente entre jornalistas. Mas para Frederic Kachar, CEO da editora Globo, e Lilian Tahan, CEO do Metrópoles, o banqueiro era um importante patrocinador que precisava ser adulado. A influência de Vorcaro sobre o jornalismo dos dois veículos era enorme.
Vorcaro era tratado como chefe de redação e quase todas as suas demandas eram imediatamente acolhidas. Bastava mandar um zap para ter uma manchete alterada, a exclusão de algum nome ou de alguma informação indesejada.
Subserviência, noitadas e ordens no G1
Nas conversas com o chefão da Globo, fica claro que o dono do Master manteve uma relação muito além da profissional. Tinham intimidade, falavam abertamente sobre suas vidas sexuais, mulheres, noitadas e traições. A dupla curtia a vida adoidado. Enquanto assaltava o país, Vorcaro se esbaldava em festas proibidas com mulheres junto com o Kachar. O banqueiro tinha predileção por mulheres do leste europeu. Era sócio oculto de uma agência de prostituição que recrutava refugiadas da Ucrânia.
A coisa era tão sórdida que os dois usavam expressões de guerra para se referirem às noitadas: "Hoje o plano é ataque soviético" ou “temos guerra na Ucrânia essa semana?”. Tal qual o ex-deputado Mamãe Falei, os chefes da Globo e do Master eram obcecados pelas mulheres da Ucrânia — o mesmo país para o qual o apresentador da Globo, Luciano Huck, viajou a bordo de um avião do Vorcaro sob a justificativa de entrevistar Zelensky. Vejam só que coincidência.
No escurinho do WhatsApp, o CEO da Globo chegou a objetificar as mulheres ligadas ao próprio Grupo Globo. “Deborah Secco tava pra jogo”, escreveu Kachar para Vorcaro a respeito de uma das festas. “Relação aberta. Preciso de uma dessas”, afirmou o executivo. “Todos nós”, respondeu Vorcaro. Esse era o nível da amizade entre o maior criminoso do país e um diretor-geral que está no grupo Globo há 29 anos.
Kachar comandava as operações dos jornais O Globo, Extra e Valor, além das revistas da editora Globo, como Vogue e Marie Claire, e da rádio CBN. Todas essas publicações foram colocadas à disposição do Vorcaro. Além de reportagens encomendadas para fazer a carreira de modelo da sua namorada bombar, Vorcaro tinha liberdade para corrigir e derrubar matérias.
Em maio de 2024, por exemplo, o portal G1 publicou notícia sobre uma suposta entrada do banco Master no ramo de supermercados. Kachar correu para mostrar para o amigo e levantar sua bola: “Entrou em supermercados também? Estás incontrolável rs!”. O banqueiro não gostou: “Info totalmente errada". O capacho da Globo correu para consertar: “Quer que eu peça pra corrigir?”. Vorcaro foi imperativo, como se fosse o chefe: "Deve!". Vinte e três minutos depois, o G1 atualizou a matéria, excluindo a citação ao banco. “Agora ficou certo", escreveu Vorcaro.
A submissão era quase absoluta. Com o tempo, a relação foi azedando. Nem todos os pedidos estavam ao alcance do chefe da Globo, o que fez Vorcaro dar um gelo no amigo. Kachar passou a mendigar atenção, sem sucesso. Depois do vazamento, o grupo Globo não teve alternativa a não ser mandá-lo embora.
No Metrópoles, o jornalismo a serviço da perseguição
Já no Metrópoles, a relação com a CEO do portal, Lilian Tahan, era menos íntima e mais profissional. A dinâmica era simples: ele pedia, ela executava. A jornalista não lhe negava nada. Com ela, Vorcaro conseguiu emplacar reportagens no Metrópoles contra um diretor do Banco Central que apertou a fiscalização sobre o Master. Ele orientava e editava as reportagens. O jornalismo do Metrópoles ficou à disposição para assassinar a reputação de um funcionário público que ousou fiscalizar a roubalheira do banco que patrocinava o portal.
Em uma das conversas com Lilian, Vorcaro demonstrou insatisfação contra o repórter do Estadão, Aguirre Talento, autor de reportagens sobre o banco Master. O banqueiro avisou a CEO do Metrópoles que iria “entrar com processo criminal” contra o repórter.
Lilian Tahan endossou a perseguição judicial contra o colega de profissão e o incentivou a seguir em frente: “Não tem nada mais chato para o repórter que responder criminal”. Tchutchuca com banqueiro, mas tigrona com colega de profissão — esse poderia ser um resumo de como funciona boa parte do jornalismo mainstream brasileiro.
Esse é apenas um dos diálogos que revelam que Lilian Tahan trabalhava a mando de Daniel Vorcaro. Tudo isso me faz lembrar da Vaza Jato, quando essa mesma jornalista duvidou da lisura do jornalismo do Intercept. Ao questionar os métodos e o futuro da profissão, Tahan foi irônica e perguntou a Glenn Greenwald sobre o fato da fonte das reportagens ter sido um hacker: “Não seria melhor, então, as empresas de comunicação demitirem os seus repórteres e contratarem hackers?”.
O deboche da jornalista envelheceu mal. Talvez seja o caso de perguntar para ela se não seria melhor o Metrópoles demitir seus repórteres e contratar assessores de imprensa indicados pelos patrocinadores do portal. Lilian Tahan não foi desligada do portal até agora. É um sinal de que o dono do portal, Luiz Estevão, que já foi preso por corrupção, peculato e estelionato, endossa o trabalho da sua CEO.
Uma eleição contaminada pelo dinheiro do Master
O escândalo do Master dominou o noticiário neste ano eleitoral. Pelo menos dois grandes veículos de jornalismo estavam sendo dirigidos por fantoches de Daniel Vorcaro. Isso não quer dizer que todos os jornalistas dessas empresas estão comprometidos com o banqueiro, mas talvez ajude a explicar algumas decisões editoriais.
Flávio Bolsonaro, que é o candidato de Daniel Vorcaro, claramente contou com a benevolência da Globo na reta final da campanha. Tivemos o famigerado powerpoint, a forçação de barra para colocar Lulinha nas manchetes, o cancelamento do debate em cima da hora, a omissão de que Flávio e o careca do INSS mantinham empresas no mesmo escritório e várias outras omissões. A eleição já foi contaminada por um noticiário influenciado pelo banqueiro bandido.
Essa promiscuidade entre o departamento comercial e as redações revela uma crise profunda no jornalismo brasileiro. E olha que só temos conhecimento do que foi conversado no WhatsApp. Não sabemos como foram as conversas nas reuniões e nas festinhas proibidas. A coisa pode ser muito pior do que imaginamos.

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