Datado de 13 de julho, o coletivo chamado “Rede UFPR” - politicamente ligado ao ex-candidato a reitor de 2016 Marcos Sunye, atual diretor do Setor de Ciências Exatas -, publicou um Manifesto, intitulado “Tradição democrática e princípios: porque não participaremos da eleição para reitoria da UFPR”, que explicita razões pelas quais ausenta-se do processo sucessório da Reitoria marcado para setembro.
Começa errando na datação do processo democrático que os movimentos da comunidade universitária instauraram na UFPR. Não foi em 1986 que começou a luta pela democracia dentro da UFPR, mas desde antes de 1981, ainda em tempos de ditadura militar. Em 1981, APUFPR à frente (o DCE estava sendo reconstruído e o SINDITEST não existia), mas com largo apoio de servidores técnicos e de estudantes, foi realizada a primeira eleição direta para a Reitoria, ainda que revestida de caráter simbólico, na qual o primeiro colocado foi o professor Lamartine, do curso de Direito. Alguns meses depois, a ditadura nomeou seu último reitor “biônico”, o professor Alcy Ramalho, das Engenharias, que assumiu em abril de 1982.
A luta por democracia na UFPR se elevou de patamar, paralelamente com a pugna pelo fim da ditadura militar, que tomava todo o Brasil, primeiro pela Campanha das “Diretas-Já”, depois no apoio à eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral da própria ditadura, derrotando Maluf, o civil amigo da milicada. Em janeiro de 1984, durante o trote da calourada, uma imensa faixa do DCE estendida no prédio da Reitoria da UFPR clamava: “Queremos eleger o presidente/E o reitor daqui pra frente!”.
Isto se concretizou, para valer, no segundo semestre de 1985, com a ditadura já fora de cena, quando a eleição direta paritária deu a vitória ao professor Riad Salamuni, da Geologia, confirmado reitor pelo então presidente José Sarney. No ano seguinte, seria eleito, também diretamente, como seu vice o professor da Medicina Dante Romanó Jr., outro expoente das batalhas democráticas da UFPR, em meio ao ninho de reacionarismo que era o HC.
Quando o Manifesto dos desertores da democracia arrola três parâmetros do processo direto na escolha da nova Reitoria, esquece um: o estímulo ao aberto e disseminado debate de propostas de gestão entre as candidaturas postas. O processo de 2016 foi pleno desses debates, tanto nos campi da capital como nos do interior. No processo deste ano, obrigado a se dar de forma virtual, pela internet, não deve ser diferente, pois as duas candidaturas inscritas no CoUn deverão discutir entre si, frente a frente, nas telas de computadores e celulares, onde quer que estejam os/as eleitores/as. E, claro, desde que as duas chapas se disponham ao confronto de ideias, pois, dentre as que se inscreveram – Ricardo Marcelo/Graciela e Horácio/Ana Paula – pode sempre acontecer de esta última, de corte direitista, se esquivar do debate, a exemplo de certo candidato a presidente de 2018.
O Manifesto dos desercionistas da “Rede UFPR” acusa como inválido para a democracia universitária o método virtual da consulta direta à comunidade. No processo usual presencial, que vem desde 1985, sempre haverá considerável parcela da comunidade eleitora altamente engajada nas disputas das chapas e nos debates, ao lado de uma porção, não insignificante, de pessoas simplesmente “desligadas” e que só vão saber que há uma eleição em curso quando são abordadas por cabos eleitorais das candidaturas na entrada do campus. Com isto se quer dizer que o processo presencial de uma eleição, per se, não é garantia sólida alguma de “mais” democracia, ou de efetiva democracia.
Além disso, cabe registrar que, mesmo nas eleições presenciais do passado, envolvendo milhares de corações e mentes dedicadas ao apoiamento a suas candidaturas, jamais o quórum de participação da comunidade atingiu sequer a metade dos aptos a votar, o que quer dizer que, infelizmente, nem todos estão efetivamente voltados a se preocupar com os rumos da instituição a serem dados por dirigentes eleitos.
Existe mesmo a possibilidade de que, neste ano, a captura da opinião pela internet até eleve o quórum de presença de votantes, inclusive por facilitar a expressão do voto, que dispensa a presença física do eleitor nas dependências da UFPR e, pior, numa eventual fila para votar. Só a título de registro, nos EUA existe a opção de voto a presidente da república pelo correio, terror de reacionários como Donald Trump. E, para os importantes e indispensáveis debates, há rádio, TV e internet.
Desde que a pandemia do SARS-CoV-2 irrompeu assustadoramente no Brasil, os poderes da República não mais debatem e deliberam presencialmente: Congresso e STF fazem sessões virtuais e nelas tomam decisões, atestando que o método é válido como instrumento para o exercício democrático. Por isso soa tão forçada a repulsa ao emprego da internet para a escolha direta da nova Reitoria da UFPR. O ex-candidato a reitor de 2016 Marcos Sunye, expert na área de informática, sabe perfeitamente de vicissitudes mas principalmente das qualidades das ferramentas de sua própria área de conhecimento e trabalho como auxiliares na vida das pessoas e governos.
Lamentável constatar como é minimizado o risco de um desgoverno inepto e autoritário, que tem na cabeça um fascista genocida, tentar qualquer brecha dentro da UFPR para introduzir um interventor nomeado em Brasília. Depois das ameaças das MP’s 914/2019 e 979/2020, baixadas pelo ensandecido ex-”ministro” Weintraub, versando sobre o processo de escolha de reitores das Universidades Federais (e felizmente extintas), não nos entra na cabeça que lideranças responsáveis da “Rede UFPR”, autora do Manifesto, possam achar que a eventual intercorrência de uma interventoria na UFPR seja algo de menor importância. Fosse uma nota redigida por estudantes que entraram há poucos anos na Universidade, e jamais viveram sob o tacão de dirigentes universitários nomeados exclusivamente por ditadores de Brasília, seria compreensível. Mas, não, trata-se de professores e servidores que labutam há muitos anos dentro da UFPR, e que, supõe-se, já pelo menos leram livros de História. Cabe, portanto, gritar em alto e bom som que a UFPR é autônoma para escolher quem a dirige, e presta contas à comunidade toda do país e do estado que a sustenta.
Nesse Manifesto da “Rede” há várias passagens dignas até de riso, tamanhas as hipérboles discursivas a que se entrega. Não obstante, chama a atenção o seguinte trecho: “O rompimento das tradições democráticas (...) preocupa porque abre caminho para que outros candidatos (...) desconsiderem a nossa tradição e exijam que seus nomes componham a lista tríplice.”
Ora, à exceção de uma única vez, no fim dos anos 1990, todos os candidatos que não alcançaram o primeiro lugar na votação direta da comunidade retiraram seus nomes da composição da lista tríplice exigida pela lei, dando lugar a outros dois apenas para constar (e com a condição de recusar a nomeação caso ocorresse). Por que então o Manifesto da “Rede” fala agora em candidato que exigiria que, mesmo derrotado no pleito direto, seu nome componha a lista? Por sua trajetória política e acadêmica, pode-se afirmar com certeza que o professor Ricardo não faria tal exigência descabida e antidemocrática. Está a “Rede” então a falar do candidato Horácio? Apreciaremos saber a resposta da “Rede” a essa frase de seu Manifesto.
Encerramos afirmando confiança no processo novo, excepcional dentro de uma situação de enorme exceção provocada pela pandemia COVID-19, que deverá permitir o livre exercício do voto democrático de todos os membros da comunidade UFPR. Processo que, levado a bom termo, poderá também vir a ser empregado para futuras consultas à comunidade sobre temas polêmicos envolvendo o destino da instituição.