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quinta-feira, 16 de julho de 2020

Militares já temem fracasso total na Saúde

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Depois de desmontar ministério, general Pazuello quer sair “de fininho”. Mas não comemore: Bolsonaro trama entrega da pasta ao Centrão. E mais: é genocídio, sim! Mortalidade de indígenas por COVID-19 é até cinco vezes maior que a média.

Por Maíra Mathias e Raquel Torres, na seção Outra Saúde do site Outras Palavras

Pelo visto, a crítica de Gilmar Mendes à presença de militares no Ministério da Saúde em plena pandemia terá o condão de forçar aquilo que entidades e especialistas não conseguiram: a saída do general. Segundo a Folha, Eduardo Pazuello teria apontado ao Planalto dois momentos ideais para a passagem do bastão a um ministro titular. Isso poderia acontecer já no final do mês, quando a pasta prevê que os casos de COVID-19 na porção que vai do centro ao norte do país comecem a declinar. Depois, haveria outra janela entre agosto e setembro, período em que se espera que os números melhorem na porção centro-sul.

As datas se casam com a apuração de O Globo, que revela que o prazo dado pela ala militar para a permanência de Pazuello como ministro interino é agosto. Se quiser continuar depois disso, ele teria de ir para a reserva – o que não faria por ainda ser general três estrelas. Pazuello também parece inclinado a refutar o arranjo no qual voltaria a ocupar o segundo posto mais importante no Ministério, a Secretaria Executiva. Quem defende essa opção calcula que ele poderia ficar afastado do Exército dois anos e, ainda sim, voltar para a ativa e se aposentar como general quatro estrelas. “Ele tem dito a interlocutores, porém, que essa opção não está na mesa, já que a ‘missão’ que lhe foi dada era temporária”, relata a repórter Natália Portinari.

Segundo ela, o Centrão engrossou o cordão dos insatisfeitos com Pazuello. Lembremos que o bloco de partidos de aluguel defendeu ativamente a permanência do general em um "mandato-tampão" – e quem serviu de porta-voz dessa posição não foi qualquer um, mas o deputado federal Ricardo Barros (PP-PR), ex-ministro da Saúde. A mudança pode indicar uma nova investida do Centrão sobre o Ministério. Os líderes partidários estariam usando como justificativa para pressionar pela saída a ‘falta de experiência’ do general ‘em lidar com políticos’ – coisa que os quadros do Centrão têm de sobra.

Saindo da Esplanada e indo para a Praça dos Três Poderes, o embate entre os militares e o ministro do Supremo continua. Ontem logo de manhã, Gilmar Mendes divulgou uma nota em que manteve sua crítica de que o Exército se associa a um genocídio, mas evitou a palavra. No texto, afirma que não atingiu a honra das Forças Armadas. “Apenas refutei e novamente refuto a decisão de se recrutarem militares para a formulação e execução de uma política de saúde que não tem se mostrado eficaz para evitar a morte de milhares de brasileiros”, escreveu. Ainda de acordo com ele, ‘nenhum analista atento da situação atual do Brasil teria como deixar de se preocupar com o rumo das políticas públicas de saúde’ do país. “Em um contexto como esse, a substituição de técnicos por militares nos postos-chave do Ministério da Saúde deixa de ser um apelo à excepcionalidade extrapola a missão institucional das Forças Armadas", afirmou. 

Já de tarde, o ministro do STF voltou a comentar o caso, dando mais ênfase à estratégia do presidente Jair Bolsonaro de se descolar da pandemia. “O Supremo na verdade não disse que os estados são responsáveis pela Saúde. O Supremo disse apenas que isso era uma competência compartilhada, como está no texto constitucional.  Mas o presidente esquece esta parte e diz sempre que a responsabilidade seria do Supremo e a responsabilidade seria dos estados. Então eu disse: se de fato se quer mostrar isso do ponto de vista político, isso é um problema e isso acaba sendo um ônus para as Forças Armadas, para o Exército, porque eles estão lá inclusive na condição de oficiais da ativa”, observou, arrematando: “Na verdade, o meu discurso é de defesa da institucionalidade das Forças Armadas, do seu papel, que eles acabem não se envolvendo. Que eles não se deixem usar nesse contexto.”

Cumprindo o anunciado, o Ministério da Defesa protocolou a representação contra Mendes na Procuradoria-Geral da República (PGR) ontem de tarde. E a Lei de Segurança Nacional, sancionada durante a ditadura e que lista crimes que afetam ‘a ordem política e social’, voltou a aparecer. Segundo o Estadão, a pasta sustenta que o ministro do Supremo pode ser enquadrado no artigo 23, que prevê como crime a prática de incitar ‘à animosidade entre as Forças Armadas ou entre estas e as classes sociais ou as instituições civis’. A pena é de um a quatro anos de prisão. Cabe à PGR seguir com o caso ou arquivá-lo.

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Charge: Jornal de Brasília

quinta-feira, 25 de junho de 2020

A curta história do "platô" na curva gráfica da COVID-19

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Há exatamente uma semana, o Ministério da Saúde dizia que o Brasil parecia caminhar para um "platô" na curva de contágios. Os números que mostravam uma estabilização eram desmascarados quando os dados eram observados localmente: em alguns estados e municípios, crescimento descontrolado; em outros, queda efetiva. Além disso, o platô era um verdadeiro planalto, com o número de casos diários sempre ficando acima de 20 mil, e o de mortes, em torno de mil.

Da Seção 'Outra Saúde' do site Outras Palavras - 25/06/2020

Com esse cenário e flexibilizações de isolamento por toda parte, o resultado obviamente não poderia ser bom. Ontem falamos sobre a nova alta no país, com 40 mil casos registrados de segunda para terça-feira. Não tínhamos a posição do Ministério, que, mesmo diante de dados tão preocupantes, não havia se manifestado. Nesta quarta, 24, os péssimos números se repetiram: 40.995 novos casos e 1.103 novas mortes. E, finalmente, a pasta fez uma coletiva de imprensa no fim da tarde.

"A gente tinha falado que parecia que a curva tenderia a certa estabilização, ou diminuição do número de casos. A gente vê que nesta semana tivemos aumento significativo de casos novos”, reconheceu o secretário de Vigilância em Saúde, Arnaldo Correia. Ele se refere não a esses últimos dias, mas a uma alta verificada a partir da semana epidemiológica 25, que terminou no dia 20 de junho. Em relação à semana anterior, houve um aumento de 22% nos casos e 7% nas mortes. "[Isso] nos mostra atenção que precisamos ter a essa doença a cada semana que passa", completou, constatando o óbvio. 

E o que levou ao aumento? O Ministério reconhece que o vírus está subindo onde antes não havia se espalhado com força. Sabemos que as reaberturas estão acontecendo de forma desordenada em todo o país, mesmo que municípios e estados estejam em momentos epidemiológicos distintos. Vimos cidades tentando fechar de novo seus comércios após flexibilizações fora de hora. Em Minas Gerais, a taxa total de ocupação das UTIs passou de 69% para 90,6% em um mês, após a reabertura em vários municípios, e hoje são nove os estados que têm mais de 80% de suas UTIs para COVID-19 ocupadas. 

Mas, para os representantes da pasta, as flexibilizações do isolamento não parecem fazer parte do problema. Eles preferem falar sobre a "mudança de estação": “O inverno começou agora na região Sul, Sudeste e Centro-Oeste, e coincidiu com o aumento no número de casos notificados e confirmados de COVID-19 nessa região”, disse Eduardo Macário, diretor do Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças Não Transmissíveis, recomendando que "a população busque se proteger o máximo possível". O mistério é como a população vai fazer para se proteger por conta própria – já que mesmo quem estava em casa começa a precisar trabalhar de novo, o auxílio emergencial [de R$600] vai sendo ameaçado e o país não tem orientações claras das autoridades para lidar com a pandemia.

Na coletiva de imprensa da Organização Mundial da Saúde (OMS) de ontem, o diretor de emergências da entidade, Michael Ryan, foi questionado sobre a situação brasileira. Disse que é difícil prever qualquer coisa, porque os rumos da pandemia dependem das respostas locais: "O que você faz afeta o pico. Afeta a altura do pico, afeta o comprimento do pico e afeta a trajetória para baixo. Isso tem tudo a ver com a intervenção do governo para responder, com a cooperação da comunidade com essa intervenção e com a capacidade de atuação dos sistemas de saúde e de saúde pública. O vírus não age sozinho. O vírus explora uma vigilância fraca. O vírus explora sistemas de saúde fracos. O vírus explora uma má governança. O vírus explora a falta de educação e a falta de empoderamento das comunidades". No Brasil de hoje, ele encontra pouco ou nenhum limite para avançar.

A propósito, o Tribunal de Contas da União (TCU) aprovou a emissão de um alerta ao governo sobre a falta de estratégia para combater a COVID-19. O relatório do ministro Vital do Rêgo aponta que não há gerenciamento de risco nem profissionais de saúde suficientes para mitigar a transmissão. E menciona a ausência de um ministro efetivo da Saúde, a ocupação de cargos na pasta por pessoas sem formação na área e a falta de transparência nas informações do governo.
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Fonte: texto do site "Outras Palavras"; figura da revista Science.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Hidroxicloroquina: resultados de estudo em um grande hospital dos EUA

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Nelson Teich foi mais um ministro da saúde expelido pelo despresidente Bolsonaro, por se recusar a atender à vontade dele de acabar com o isolamento social e de liberar amplamente o uso de cloroquina/hidroxicloroquina para tratar a infecção do SARS-CoV-2.

Na edição de 7 de maio da renomada revista médica New England Journal of Medicine foi publicado artigo relatando pesquisa sobre eficácia da hidroxicloroquina no tratamento da COVID-19 em um grande hospital de Nova York.  O estudo foi realizado em função de que essa droga vem sendo amplamente administrada a pacientes de COVID-19 mas sem evidência robusta que sustente esse uso disseminado.  O texto integral do artigo (em inglês) pode ser visto aqui.

Como método no estudo, foi examinada a associação entre uso de hidroxicloroquina e o evento de precisar ser feita intubação e/ou de ocorrer óbito.  Os pesquisadores compararam estatisticamente os desfechos clínicos em pacientes que usaram essa droga com os desfechos dos que não a tomaram. 

O estudo acompanhou 1.376 pacientes hospitalizados (cujo tempo médio de internação foi de 22,5 dias), que receberam 400 mg de hidroxicloroquina por dia, administrada principalmente aos casos mais graves.  Na análise principal final, não houve associação significativa entre o uso de hidroxicloroquina e os eventos de intubação ou de morte, isto é, a droga não influiu sobre esses desfechos. 

Em outras palavras, a administração de hidroxicloroquina não foi associada nem com um risco grandemente diminuído ou risco grandemente aumentado de ocorrência de eventos como intubação e/ou morte. Desse modo, a orientação clínica naquele grande centro médico novaiorquino foi atualizada no sentido de remover a sugestão de que pacientes de COVID-19 sejam tratados com hidroxicloroquina.  

É, porém, necessário realizar mais estudos clínicos controlados randômicos com hidroxicloroquina em pacientes de COVID-19. Ressalvam os pesquisadores que os resultados de seu estudo não sustentam o uso de hidroxicloroquina na atualidade, a menos que outros estudos clínicos venham comprovar sua eficácia.
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Fonte: New England Journal of Medicine, ed. de 07/05/2020
DOI: 10.1056/NEJMoa2012410
Autores: Geleris, J. et al. (2020)

sábado, 18 de abril de 2020

O Despautério da Saúde nas mãos do oncologista Nelson Teich

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O empresário carioca da área de Medicina privada Nelson Teich substituiu Luiz Mandetta no ministério da saúde desde quinta-feira (16/04).  O deputado federal ligado a oligarquias rurais da região centro-oeste, Mandetta, entrou em rota de colisão com o despresidente Bolsonaro, que não admite que nenhum ministro lhe faça sombra.  Além disso, Bolsonaro, que é antiCiência e não entende nada de Saúde, estava pressionado por empresários para que os trabalhadores em isolamento social voltassem à labuta.  O PIB de 2020, que em janeiro era previsto para crescer 2% segundo a turma do ultraliberal Paulo “Parasita” Guedes, vai terminar o ano no negativo.  Ou seja, mais miséria, desigualdades e desemprego. 

Ainda assim, o ex-ministro Mandetta estava dando condução razoável ao enfrentamento da pandemia do novo coronavírus, argumentando necessidade do isolamento dos brasileiros em suas residências e desestimulando aglomerações e circulação nas ruas das cidades.  Não há tratamento medicamentoso nenhum para a COVID-19 (há alguns estudos em curso, mas nada ainda comprovado e seguro) e uma vacina, com sorte, fica pronta só dentro de um ano. 

Ironicamente, por sua origem e ligações políticas, Mandetta, que é filiado ao DEM, nunca foi a favor do fortalecimento do SUS (ao contrário), mas está sendo sobretudo o funcionamento do SUS que vem evitando tragédia maior nesta pandemia.  E ao custo das vidas de centenas de profissionais da Saúde. Mandetta combatia o SUS, foi contra a permanência dos médicos cubanos (do Programa Mais Médicos, do governo Dilma e votou a favor do golpe que derrubou Dilma da presidência em agosto de 2016. 

Matéria de ontem no jornal Gazeta do Povo afirma sobre a posse do novo ministro: 

"A menção de Bolsonaro a uma transição mais tranquila possível é um indicativo de um potencial rumo que o Ministério pode tomar sob o comando de Teich. Apesar de o novo ministro ter declarado que tem alinhamento completo com Bolsonaro, algumas de suas visões sobre o combate ao coronavírus são similares às de Mandetta – e que contribuíram para o rompimento entre o ex-ministro e o presidente da República." 


Teich: ministério ou despautério? 

Em seu discurso de posse, Teich não mencionou nenhuma vez a cloroquina, a droga queridinha de Donald Trump e de Bolsonaro Não existe até hoje nenhum estudo sério e controlado que autorize a usar esse medicamento antimalária e antiartrite no tratamento da COVID-19; aliás, entre efeitos colaterais da cloroquina (e da forma hidroxi-) estão inflamação do músculo cardíaco (miocardite) que pode levar a infarto, danos às retinas (que pode causar cegueira) e até indução a comportamento suto suicida. 

Sobre a dicotomia entre Saúde e Empregos (economia), Teich descartou isso:  

"Essas coisas [economia e saúde] não competem entre si. Elas são completamente complementares. Quando você polariza uma coisa dessas, você começa a tratar como se fosse pessoas versus dinheiro, o bem versus o mal, empregos versus pessoas doentes. E não é nada disso". 
 
Ah, é, senhor ministro?  Quer dizer que numa economia estagnada, que não cresce há 4 anos, com mais de 12 milhões de desempregados (em função das políticas recessivas dos governos Temer e do começo de Bolsonaro), como acha que vivem esses na rua da amargura do desemprego?  Estão em perfeita saúde, malhando nas praias do Rio de Janeiro, onde o senhor mantém sua empresa que tira lucros da exploração da Medicina privada? 

O que é mais provável a ocorrer é que o novo ministro vá gradual, mas não lentamente, relaxando o isolamento social, favorecendo que mais pessoas se contaminem ao saírem de casa como se tudo estivesse normalizado.  Por dados de 15/04, no país há 34.126 casos confirmados da pandemia, desses já tendo 2.141 pessoas morrido sem conseguir respirar direito.  No Paraná, são 887 casos e 44 mortes. E ainda se estima que haja subnotificações, que podem ter cifras ao menos 10 vezes maiores que os casos noticiados pelos governos. 

Por esses aspectos, o futuro do Brasil se desenha bem sombrio.  E nessa pandemia sofrerão e morrerão os mais pobres, que nem leito vago de UTI talvez não achem mais por colapsamento de hospitais, clínicas, enfermarias.  Por culpa de um despresidente sociopata e adorador da morte. 
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Fonte: foto e citações do jornal Gazeta do Povo