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segunda-feira, 10 de março de 2025

Memória, memória, memória

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Na tenebrosa primavera de 1975, pouco depois do assassinato de Vladimir Herzog no DOI-Codi em São Paulo, professores e estudantes da Faculdade de Comunicação da UFRGS, a Fabico, colocaram na parede do diretório de estudantes uma placa com homenagem ao jornalista.

Moisés Mendes - DCM - 10/03/2025

Herzog seria o patrono do centro. No dia seguinte, a homenagem sumiu. Todos os que viveram aquele período em Porto Alegre sabem quem foi o ladrão da placa.

Muitos dos que estavam lá e nada puderam fazer, além de identificar o serviçal da ditadura, vão colocar outra placa no mesmo lugar, agora ao lado de jovens que têm idades com menos da metade do tempo percorrido até aqui. Será no dia 8 de abril.

A placa diz o seguinte: “Em 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado sob tortura nas dependências do Exército. Vlado defendia a democracia e combatia a ditadura. Em sua honra, as e os estudantes da Fabico deram seu nome à sala do diretório acadêmico. Na manhã seguinte, a placa foi arrancada pela direção da Faculdade, a mando da ditadura. 50 anos depois, estamos aqui novamente. Para que não se esqueça, para que nunca mais se repita. Ditadura nunca mais!”.

O resgate da homenagem a Herzog está no contexto da decisão da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) de instituir 2025 como o Ano Vladimir Herzog. Completa-se meio século do assassinato do jornalista.


Recuperar placas é parte de um esforço pela retomada de gestos concretos de marcação de memória e de resistência ao que eles tentam repetir. Assim como foi recuperada e recolocada na calçada da Rua Santo Antônio, diante de antigo prédio do DOPS, também em Porto Alegre, a placa que informa: aqui, no primeiro centro clandestino de detenção do Cone Sul, torturavam e matavam inimigos da ditadura.

E o Brasil vai lidando com a preservação de memórias, mas com ações intermitentes, casuais, pontuais. Está dito por muita gente que não pode mais ser assim. Que precisamos ser mais intensos, constantes e efetivos, como são, na eterna comparação que nos desfavorece, uruguaios, argentinos, chilenos.

A conquista do Oscar por ‘Ainda estou aqui’, a consagração de Fernanda Torres como representação da mulher que resiste e tudo mais que o filme e o prêmio passam a inspirar nos empurram para a repetição da palavra síntese da luta de Eunice Paiva depois do assassinato do marido: memória, memória, memória.

Tanto que o apelo por verdade, memória e justiça, consagrado em todos os países que enfrentaram ditaduras, tem no Brasil muitas vezes a versão em que a primeira palavra é memória.

Memória como respeito, afeto, reconhecimento. Para que a memória acione verdades e as verdades e as memórias conduzam às mobilizações por justiça.

Esse deve ser o ano da memória por Herzog, por todos os assassinados, pelos que nunca mais foram vistos e que, se sabe hoje, são bem mais do que os 232 considerados ainda desaparecidos durante a ditadura.

Que em nome da memória, como já disse Marcelo Rubens Paiva ao ser cobrado por ter escrito sobre sua família branca e rica, outros escrevam mais e façam filmes sobre pretas e pretos, pobres, colonos e indígenas que a ditadura matou e que, pelas omissões da própria democracia restaurada, foram invisibilizados.

Que o Brasil se dedique à memória desses invisíveis que também desapareceram sem que documentos, cadastros e anotações tenham registrado seus nomes e suas histórias como vítimas de ditadores e torturadores.

(Octávio Costa, Regina Pimenta e colegas da ABI, estamos juntos nessa empreitada permanente. Memória, memória, memória.)

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Vergonha: Governo Bolsonaro se nega a reconhecer na ONU o Golpe de 1964

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O governo Bolsonaro se recusou a reconhecer nas Nações Unidas a existência do golpe de Estado em 1964 no Brasil.

É o primeiro gesto público desta natureza no fórum internacional desde a redemocratização, como informa Jamil Chade no UOL.

Em evento realizado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), relatores internacionais e entidades, o governo também se recusou a usar o termo "regime militar" e chamou o período ditatorial de "eventos entre 1964 e 1985".

Tudo isso aconteceu nesta terça-feira (10), durante encontro realizado pela OAB e pelo Instituo Herzog que contou com a presença de relatores internacionais em Genebra.

O grupo, na sede das Nações Unidas, denunciava o desmonte dos mecanismos de Justiça, Memória e Verdade sob o governo Bolsonaro.

Em dado momento, uma jornalista mexicana tomou a palavra e perguntou diretamente: houve ou não houve golpe em 1964?

Um diplomata respondeu em nome do Itamaraty e evitou confirmar a existência do golpe. Ele apenas disse que o governo já enviou uma carta à ONU, em abril, na qual o Planalto insiste que os "eventos" de 1964 foram "legítimos" e que faziam parte da "luta contra o comunismo".

Esse comportamento do governo Brasileiro vem poucos dias depois de Bolsonaro elogiar o sanguinário ditador chileno Augusto Pinochet e de Carlos Bolsonaro, filho do presidente, dizer nas redes sociais que as "vias democráticas" não estão dando os resultados que o país deseja.
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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

16/12: relembrar o valor da democracia conquistada com sacrifício de muitas vidas

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"Comunico-lhe que o seu PCdoB acabou". Esta frase dita por um policial-torturador ao dirigente comunista Haroldo Lima um dia após a sua prisão mostra bem o nível de arrogância dos agentes da ditadura militar. Os fatos, porém, pareciam confirmar aquele trágico anúncio. Um jornal do dia 17 de dezembro de 1976, ecoando a opinião do regime discricionário, também estampava: "O PCdoB foi destruído". Esta não seria a primeira vez que frases como estas seriam pronunciadas e impressas com destaque na grande imprensa.

No dia anterior, 16 de dezembro, numa verdadeira operação de guerra, os órgãos de segurança haviam invadido uma casa modesta - localizada na Rua Pio XI, nº. 767, no bairro da Lapa em São Paulo - e assassinado friamente dois dos mais importantes dirigentes comunistas brasileiros: Pedro Pomar e Ângelo Arroyo. Poucas horas antes outro dirigente, João Batista Drummond, havia sido morto durante uma sessão de tortura no DOI-CODI paulista. A versão mentirosa da ditadura foi que Ângelo e Pedro haviam resistido à prisão e que João Batista havia sido atropelado ao tentar fugir da polícia. Este foi o último massacre de militantes de organizações da esquerda que combatiam a ditadura.

Apesar de sua importância para a história brasileira, este acontecimento é ainda pouco conhecido. Tornou-se quase um senso comum a ideia de que o último assassinato político cometido pelo regime militar foi o que vitimou o jornalista Wladimir Herzog, em 23 de outubro de 1975, ou o que atingiu o operário Manoel Fiel Filho, morte ocorrida nas mesmas condições menos de três meses depois.

Os assassinatos de Herzog e Fiel Filho, militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), ocorridos cerca de um ano antes do trágico acontecimento da Lapa, tiveram grande repercussão e desencadearam protestos de amplos setores da sociedade brasileira e no exterior. O escândalo levou à demissão do comandante do II Exército, General Ednardo Mello. Este representava o setor mais truculento do regime e se opunha à “abertura lenta, gradual e segura" apregoada pelo general-presidente Ernesto Geisel. Ednardo foi substituído pelo general Dilermando Monteiro, considerado um membro da ala liberal do regime.

Para muitos, esta mudança de comando teria consolidado a transição para a democracia e posto um fim ao terrorismo de Estado, iniciado em abril de 1964 e radicalizado com a promulgação do AI-5 em dezembro de 1968. No entanto, a Chacina da Lapa seria um duro desmentido a esta tese. No Brasil de Geisel e Dilermando ainda se torturava e se matava aqueles que ousavam a desafiar o poder militar. Foi durante este governo, por exemplo, que foram assassinados os últimos guerrilheiros do PCdoB no Araguaia e iniciou-se a operação de extermínio da direção do PCB.


O traidor
A casa onde se reunia a direção nacional do Partido Comunista do Brasil, somente pode ser descoberta graças à colaboração de um traidor chamado Jover Telles. Este era membro do Comitê Central, havia sido preso pouco tempo antes e concordou em colaborar com os órgãos de repressão na captura dos seus camaradas de partido.

Um agente da repressão confirmou que Jover foi preso no Rio de Janeiro três meses antes e havia decidido colaborar no desmonte da direção partidária “em troca de bom tratamento e emprego para ele e sua filha na fábrica de armas Amadeo Rossi, no Rio Grande do Sul”. Em 1996, Jover foi candidato a vereador pelo PPB de Paulo Maluf na pequena cidade que, ironicamente, chamava-se Arroyo dos Ratos.

Conforme foi revelado no livro “Operação Araguaia: os arquivos secretos da guerrilha” de Taís Morais e Eumano Silva, no dia 8 de dezembro Jover Telles deu um depoimento cordial aos órgãos de repressão e no dia 11 se apresentou tranquilamente no ponto onde seria pego para ser transportado ao local no qual ocorreria a reunião da Comissão Executiva do PCdoB. Esta se realizou entre os dias 12 e 13 de dezembro e no dia seguinte teve início a reunião do Comitê Central.


Mesmo sabendo que a casa (foto acima) estava cercada e que os membros da direção comunista poderiam ser presos e até mortos, ele calmamente participou de toda a reunião e durante os debates ainda se colocou entre aqueles que mais duramente criticaram a experiência armada ocorrida na região do Araguaia, considerando-a foquista.

Em 15 de dezembro, quando os participantes da reunião começaram a abandonar o local, sempre conduzidos pela dirigente Elza Monnerat e o motorista Joaquim Celso de Lima, o cerco policial se fechou e tiveram início as prisões, torturas e o frio extermínio dos líderes comunistas. Foram aprisionados, e depois barbaramente torturados, cinco membros do Comitê Central: Elza Monnerat, Aldo Arantes, Haroldo Lima, Wladimir Pomar, João Batista Drummond, além dos militantes Joaquim Celso de Lima e Maria Trindade. José Novaes, que teve a sorte de sair junto com Jover Telles, foi o único participante da reunião, além do traidor, que não foi preso. Se apenas Jover escapasse ileso atrairia a atenção sobre ele.

Na manhã do dia 16 de dezembro iniciou-se o derradeiro ataque contra a casa na qual ainda se encontravam dois membros do Comitê Central: Ângelo Arroyo e Pedro Pomar. Segundo testemunhas, eles estavam desarmados e não foi lhes dado nenhuma chance de defesa. A repressão chegou atirando. O corpo de Pomar tinha cerca de 50 perfurações de bala.


A polícia política remontou a cena do massacre, colocando armas ao lado dos corpos inermes, e divulgou a falsa versão de que eles haviam sido mortos durante um intenso tiroteio. Já em plena abertura política, a maioria dos órgãos da grande imprensa vendeu a versão oficial, sem grande contestação.


Cerco e aniquilamento
Nesta operação policial-militar, a repressão também pretendia assassinar João Amazonas, como se depreende da entrevista de Dilermando Monteiro, publicada em 13/12/1978 na revista ISTO É. Nela o general afirmava: "Nós descobrimos que naquele dia iria haver uma reunião em tal lugar, com a presença de tais e tais elementos, e aí fomos um pouco embromados, porque constava para nós que o João Amazonas estaria presente e o mesmo estava na Albânia, mas para nós ele estaria presente naquela reunião".

Pedro Pomar deveria ser o membro da direção que viajaria para China e Albânia para informar da derrota da guerrilha e participar do congresso do PTA. Mas, a doença de sua esposa o fez trocar de lugar com João Amazonas. A viagem não planejada, e nem desejada, salvou Amazonas de uma morte certa. Estes dois dirigentes comunistas iniciaram sua amizade e militância em Belém do Pará, ainda na década de 1930. Foram deputados federais e responsáveis pela reorganização do Partido no final do Estado Novo e no início da década de 1960, quando houve a grande cisão do movimento comunista brasileiro.

Em 1976 o PCdoB era a única organização revolucionária clandestina que ainda se mantinha minimamente organizada, com uma direção nacional que conseguia se reunir periodicamente e um jornal, A Classe Operária, que circulava com certa regularidade. Para os generais era preciso primeiro limpar o terreno político da presença indesejável das organizações de esquerda, especialmente comunistas, para depois implantar o seu modelo de democracia, restrita e elitista.

A repressão, depois de destroçar as organizações que promoveram a guerrilha urbana, partia para desmantelar o Partido que realizara o principal movimento guerrilheiro contra a ditadura militar: a Guerrilha do Araguaia. Entre dezembro de 1972 e março de 1973 foram assassinados os dirigentes comunistas Carlos Danielli, Lincoln Cordeiro Oest, Luiz Guilhardini e Lincoln Bicalho Roque. Nos anos seguintes, entre 1974 e 1975, tombaram Ruy Frazão e Armando Frutuoso. Todos morreram na tortura.

O ódio dos generais reacionários contra o Partido que havia dirigido a experiência guerrilheira no Araguaia era enorme. Destruir o PCdoB era o sonho obstinado desses senhores, um sonho que parecia ter se realizado naquela manhã de 16 de dezembro de 1976.

A notícia do crime correu o mundo e ocorreram várias manifestações de protestos em vários países. Destaca-se a moção do PC da China e do Partido do Trabalho da Albânia. Em Portugal ocorreu um grande ato que reuniu milhares de pessoas em repúdio ao massacre da Lapa e exigindo a liberdade dos presos políticos. Um manifesto com 40 mil assinaturas também foi entregue ao embaixador brasileiro em Lisboa. A mais bela homenagem foi a música Sangue em Flor, composta em homenagem aos mártires da Lapa. Na sua última estrofe dizia: “Onze vidas na prisão/Com planos de justiça e pão/ Nas mãos sangrentas da tortura/ Não há sol na ditadura/ Nem sangue que vença a razão”.


Tal qual a Fênix
Passados 30 anos o sonho das elites conservadoras se transformou num pesadelo. O Partido Comunista do Brasil não só sobreviveu como se fortaleceu. Menos de dois anos depois do massacre, em 1978, o Partido já estava reorganizado e realizava a sua VII Conferência Nacional. Ela armaria, teórica e politicamente, o PCdoB para participar e influir nas grandes lutas populares e democráticas que eclodiriam no país nos últimos anos da década de 70 e início da década de 80. O Partido teve participação destacada na luta contra a ditadura militar, pela Anistia, contra a carestia, em defesa dos direitos sociais dos trabalhadores, pelas Diretas-Já e pela vitória do candidato único da oposição no Colégio Eleitoral (Tancredo Neves). Em 1985, com o fim da ditadura militar, conquistou sua legalidade. Milhares e milhares de trabalhadores e estudantes viriam engrossar as fileiras do Partido dos mártires do Araguaia e da Lapa.

Mas, o PCdoB não tem apenas uma significativa influência no movimento social, ele progressivamente ganha espaço no parlamento e nas várias instâncias do poder executivo. Exerce importantes responsabilidades nas instituições da República, a exemplo da presidência da Câmara dos Deputados, com o deputado Aldo Rebelo, e do Ministério do Esporte, com Orlando Silva Junior. Nas eleições de 2006 para o Congresso Nacional, o PCdoB elegeu uma bancada de 13 deputados federais e um senador da República, o cearense Inácio Arruda – acontecimento que só foi observado em 1945, quando da eleição de Luís Carlos Prestes. O PCdoB tem ainda vários prefeitos, inclusive o de Aracaju, secretários estaduais e municipais, parlamentares nas Assembleias Legislativas e cerca de três centenas de vereadores espalhados por todos os estados brasileiros.

O X congresso do PCdoB, realizado em outubro de 2005, afirmou em alto e bom som que o PCdoB vive, floresce e se capacita cada dia mais para ser uma das forças dirigentes do processo de transformação social que o Brasil tanto necessita. Ele reuniu mais de mil delegados representando 70 mil militantes. Nele, estiveram presentes 45 organizações comunistas e progressistas de todas as partes do mundo. Isto mostra o prestígio internacional angariado pelo Partido nestas últimas décadas.

Este Congresso foi uma prova viva de que os homens e mulheres que pertenceram a esta organização e morreram defendendo a democracia, a soberania nacional, os direitos sociais dos trabalhadores e o socialismo continuam vivos no coração de cada militante da causa social e são motivos de orgulho do nosso povo. Quanto àqueles que os prenderam, os torturaram e os assassinaram estão “mais mortos que os próprios mortos” e são obrigados a viver nas sombras. Seus nomes não podem nem mesmo ser pronunciados. Pelo contrário, ao chamado de cada nome dos heróis da Lapa e do Araguaia, responderemos sempre e em uma só voz: Presente!
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Artigo escrito por ocasião dos 30 anos (2006) da Chacina da Lapa por Augusto Buonicore, historiador, membro da equipe da Fundação Maurício Grabois e do Comitê Central do PCdoB.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Vice-diretor de campus da UFPR defende intervenção militar?

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Vice-diretor Helton Alves ao lado do tucano golpista Álvaro Dias

O professor Helton José Alves - nomeado pelo reitor Zaki Akel como vice-diretor do campus Palotina em mandato junto com o diretor Elisandro Frigo – teria afirmado a colegas sua posição favorável a uma intervenção militar para resolver problemas do país.

Químico formado na UEM, o docente acrescenta que essa intervenção das Forças Armadas deveria ser “democrática”.  Parece que em sua formação faltaram aulas de História do Brasil, pois esse papo de “intervenção democrática” foi um dos argumentos que militares golpistas usaram em 1964 para rasgar a Constituição e instalar uma ditadura fascista que durou “só” 21 anos.

Curiosamente, na última quarta-feira (18) em Palotina, aconteceu palestra de um general da 15ª Brigada de Infantaria de Cascavel, reunindo cerca de 300 pessoas, evento para o qual a direção do campus convidou toda a comunidade universitária.

A UFPR foi uma das instituições castigadas pelos desmandos e perseguições da finada ditadura (1964-1985), com professores sendo cassados e muitos estudantes perseguidos.  Não à toa, no ano passado o busto do ex-reitor Flávio Suplicy de Lacerda – um notório colaborador do regime militar – foi derrubado de seu pedestal nos jardins da Reitoria da UFPR, em Curitiba, num ato de protesto efetivado pelo movimento estudantil.


Como pode então um dirigente de campus da UFPR demonstrar tão fraca memória, e assumir posição claramente antidemocrática contra a Constituição Federal?  O que nos diz disso o reitor Zaki Akel, vencedor de uma eleição direta em 2012?
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Foto: Blog Vandré Fernando

terça-feira, 1 de abril de 2014

1964 foi golpe dos EUA e da mídia contra o Brasil

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Quando comecei a frequentar assembleias estudantis, ali pelos anos 80, ainda era comum escutar que havia policiais infiltrados anotando tudo, fazendo a “ficha” de quem se manifestava. A turma mais “pós-moderna” achava que era tudo “paranoia”. Do mesmo jeito, muita gente dizia que atribuir aos EUA participação decisiva no golpe de 64 era pura “invenção”, ou “paranoia” esquerdista. E não era. Nunca foi…

Por Rodrigo Vianna, no Blog Escrevinhador

Já se sabe, há alguns anos, que os Estados Unidos - com John Kennedy e depois Lyndon Johnson – conspiraram contra o Brasil em 1964. A Operação “Brother Sam” garantia o envio de aviões, de navios de guerra e até a entrada de tropas dos Estados Unidos para dar apoio aos golpistas - se assim fosse necessário.

Reportagem de Luiz Carlos Azenha, no Jornal da Record, trouxe mais detalhes sobre o apoio dos Estados Unidos ao golpe (clique aqui para ver). Assim como apresentou novas evidências de que o comandante do II Exército (São Paulo), Amaury Kruel, recebeu malas de dólares para trair Jango e aderir ao golpe.

O que isso tudo tem a ver com a foto do presidente deposto João Goulart, que permanecerá na capa deste blog durante todo o dia de hoje? Ora, Jango durante muito tempo foi criticado pela esquerda e a direita. Os conservadores diziam que ele era um “comunista” propenso a transformar o Brasil “numa nova Cuba”. Besteira grossa, sem fundamento. Jango era um líder trabalhista, queria reformas – mas dentro da ordem democrática.

Já a esquerda acusava Jango de fraqueza, por não ter resistido ao golpe. Hoje se sabe que ele tinha conhecimento das movimentações das tropas dos EUA. Jango temia que, se resistisse de armas na mão, daria aos gringos a desculpa para entrarem no Brasil – dividindo nosso território. Aliás, preocupação semelhante à de Getúlio Vargas – que em 1954 também chegou a falar que temia ver o Brasil dividido (como acontecera com a Coréia).

Para os Estados Unidos, seria ótimo dividir o Brasil – literalmente. Apesar de todos nossos problemas, somos um incomodo – um país grande, bem relacionado com nossos vizinhos, pronto a desafiar (ainda que de forma discreta e pontual) o domínio dos EUA na América do Sul.

A queda de Jango foi (também) um capítulo dessa disputa, dessa longa batalha da América Latina por independência e autonomia.

De forma brilhante, o professor Moniz Bandeira mostra como se deu esse longo embate: os detalhes estão em seu “De Marti a Fidel” – livro sobre a Revolução Cubana. Vargas cercado pela direita (e levado ao suicídio) em 1954, Arbenz derrubado na Guatemala no mesmo ano, tentativa norte-americana de invadir Cuba (Baía dos Porcos) e derrubar Fidel. São todos capítulos da mesma guerra. Em 1964, Jango e a Democracia brasileira foram golpeados em meio a essa conjuntura. Que depois vitimaria Argentina, Uruguai e o Chile de Allende.

Estampar a foto de Jango, no dia em que o golpe nefasto completa 50 anos, é um gesto não só de defesa da Democracia, mas de defesa da independência e da soberania nacional.

Jango – assim como Vargas dos anos 50 – simboliza a defesa do interesse nacional. Estou entre aqueles que não aceitam o termo “populismo” como forma de definir a linha política que unia Vargas-Jango-Brizola, e que de alguma forma chegou até Lula-Dilma. Não. Nada de “populismo”. Trata-se do trabalhismo brasileiro. Com seus defeitos e imperfeições.

Não aceito também a tese do “colapso do populismo” – expressão utilizada em certos circuitos universitários paulistas, para definir o que houve em 1964. Prédios entram em colapso. Falar em “colapso do populismo” é desconhecer (ou minimizar) o golpismo que uniu conservadores brasileiros a interesses dos Estados Unidos, em meio à Guerra Fria.

Jango foi derrubado. O golpismo derrubou um governo legítimo e popular. Foi necessário um golpe para derrubar um presidente que – se pudesse ser candidato em 1965 – seria reeleito (como indicavam pesquisas do IBOPE feitas na época, e só agora divulgadas).

Nesse primeiro de abril de 2014, não aceitemos a mentira dos revisionistas, nem o cinismo de editoriais/artigos da imprensa velhaca, que falam do golpe como algo “inevitável”ou como uma “porrada necessária” (na expressão infeliz de um ex-cineasta que aderiu ao revisionismo da Globo). Não!

Precisamos esculhambar revisionistas e escrachar torturadores – como a rapaziada fez com Brilhante Ustra em Brasília. Precisamos, sim, homenagear os mortos na luta contra a ditadura (muitos deles, sob tortura) e cobrar informações sobre os desaparecidos!

Mas devemos lembrar também o que veio antes, lembrar o ato fundador da barbárie: em primeiro de abril de 1964, Jango foi derrubado pela direita lacerdista, com apoio de amplos setores da Igreja Católica e da mídia velhaca (Marinhos, Mesquitas, Frias, entre outros), e sob ameaça concreta de invasão de nosso território pelas tropas dos Estados Unidos.

1964 foi (também) um golpe dos Estados Unidos contra o Brasil. Lembrar Jango é dizer não à ditadura, não à intervenção estrangeira. Sim à Democracia, sim à luta pela independência nacional.

Viva Jango, nosso presidente!

domingo, 23 de março de 2014

Marcha das famílias? Que marcha?

2 comentários:
Abaixo uma ilustração do preenchimento mental, do conhecimento de história e do rol de propostas para o Brasil daqueles que organizaram uma certa 'marcha das famílias' supostamente com a companhia de alguma divindade:

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Viu?  Não viu nada?  É isso mesmo.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Participe do lançamento do Forum Paranaense pelo Resgate da Memória, da Verdade e da Justiça

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O auditório da Reitoria da UFPR acolherá nesta quinta-feira (12), a partir das 19h30, o lançamento do   Fórum Paranaense pelo Resgate da Memória, da Verdade e da Justiça, com a participação de significativo número de entidades dos movimentos sociais e de partidos políticos. 

O objetivo deste Fórum é apoiar no Paraná os trabalhos da Comissão da Verdade, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pela presidente Dilma Rousseff em fins de 2011.  A Comissão tem por finalidade  desvendar fatos relativos a crimes cometidos pela ditadura militar do período 1964-1985, as torturas, desaparecimentos e assassinatos de militantes políticos.

Temerosos de que suas participações diretas ou indiretas nas barbaridades da ditadura apareçam à luz do dia, um punhado de militares da reservas vem reagindo ao funcionamento da Comissão da Verdade, e chegaram a realizar a provocação de comemorar os  48 anos do golpe militar de 1. de abril no Rio de Janeiro.

O lançamento do Forum é evento aberto a todos os interessados.

sábado, 10 de março de 2012

Restaurante Universitário recebe nome de guerrilheira do Araguaia

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O novo Restaurante Universitário da UFRJ, a ser inaugurado no Centro da Tecnologia da Cidade Universitária, receberá o nome de "Áurea Valadão", estudante da UFRJ que tombou na Guerrilha do Araguaia lutando contra a ditadura militar. Em 2010, o então Reitor Aloísio Teixeira já havia inaugurado o RU do Centro de Ciências da Saúde com o nome de "Edson Luiz de Lima Souto", estudante assassinado pela repressão da ditadura em 1968 no antigo restaurante Calabouço, também no Rio.   É uma justa homenagem do Conselho Universitário da UFRJ a quem militou em defesa das liberdades democráticas.

Quem foi Áurea Eliza Pereira Valadão
Militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Áurea participava do movimento estudantil da UFRJ e no começo dos anos 1970 deslocou-se à região do sul do Pará onde iria acontecer a Guerrilha do Araguaia,  local de seu desaparecimento aos 24 anos de idade.

Nasceu em 6 de abril de 1950, em Areado, sul de Minas, filha de José Pereira e Odila Mendes Pereira. Sua família morava na Fazenda da Lagoa, município de Monte Belo, onde seu pai era administrador e, por isso, Áurea Eliza teve que ir, muito cedo, para o internato. Afetiva e risonha, sempre manteve um bom relacionamento com a família durante sua infância e adolescência. Mudou-se, em 1964, para o Rio de Janeiro, para cursar o 2° grau no Colégio Brasileiro, em São Cristóvão, morando com sua irmã Iara, com quem tinha laços muito estreitos e afetuosos. 

Prestou vestibular, aos dezessete anos, para o Instituto de Física da UFRJ, em 1967, onde pretendia estudar Física Nuclear. Participou intensamente do movimento estudantil no período de 1967 a 1970, tendo sido membro do Diretório Acadêmico de seu Instituto, juntamente com Antônio Pádua Costa e Arildo Valadão - seu marido -, ambos também desaparecidos. 

No início do ano de 1974, foi vista viva e em bom estado de saúde, no 23° Batalhão de Infantaria da Selva, pelo preso Amaro Lins, que prestou estas declarações no 4° Cartório de Notas de Belém/PA. Segundo depoimento de uma moradora de Xambioá (PA), que não quis se identificar, Áurea foi vista morta na delegacia da cidade, e seu corpo estaria enterrado no cemitério local. 

Em 1991, familiares de mortos e desaparecidos na Guerrilha do Araguaia estiveram neste cemitério junto com a Comissão de Justiça e Paz e a equipe de legistas da Unicamp. Nessa ocasião, foram exumadas duas ossadas, uma de um negro, provavelmente Francisco Manoel Chaves (desaparecido) e outra de uma mulher, jovem, cujo corpo estava enrolado num pano de paraquedas com a identificação arrancada, que poderia ser de Áurea. Em 1996, os restos mortais encontrados no cemitério de Xambioá foram identificados como sendo de Maria Lúcia Petit, outra guerrilheira assassinada no Araguaia.
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Fonte: com informação do Grupo Tortura Nunca Mais.

domingo, 3 de abril de 2011

Um pouco de história: recordar o março golpista de 1964 e suas causas

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O título do editorial do jornal Correio da Manhã que circulou no dia 31 de março de 1964, há exatamente 47 anos, sintetizou numa palavra o desejo da elite brasileira naquele dia: "Basta!". No dia seguinte, 1º de abril, o jornal repetiu a dose: "Fora!". A mídia vinha entoando um coro muito bem afinado contra o governo do presidente João Goulart e incitando o golpe.

A Folha de S. Paulo do dia 27 de março de 1964, em editorial intitulado "Até quando?", indagou: "Até quando as forças responsáveis deste país, as que encarnam os ideais e os princípios da democracia, assistirão passivamente ao sistemático, obstinado e agora já claramente declarado empenho capitaneado pelo presidente da República de destruir as instituições democráticas?" O jornal O Estado de S. Paulo do dia 14 de março disse: "(...) Depois do que se passou na Praça Cristiano Ottoni (...), após a leitura dos decretos presidenciais que violam a lei, não tem mais sentido falar-se em legalidade democrática, como coisa existente."


No dia anterior, cerca de duzentas mil pessoas participaram do famoso comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, no qual foi anunciado que o presidente acabara de assinar, no Palácio das Laranjeiras, o Decreto da Supra (Superintendência da Política Agrária), que propunha um plano de desapropriação dos latifúndios improdutivos acima de 500 hectares, por interesse social. O presidente mexeu num vespeiro. No dia 19 de março de 1964 — dia de São José, padroeiro da família — mulheres ricas paulistas lideraram a "Marcha da Família com Deus pela Liberdade", incitando ao golpe militar. Em nome da família, de Deus e da liberdade o movimento estava defendendo os interesses terrenos dos latifundiários, banqueiros e industriais.

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Fonte: Fundação Mauricio Grabois