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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

É um pássaro? É um avião? A IA não tem certeza

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A inteligência artificial (IA) já deu contribuições impressionantes em áreas que vão da matemática à geração de imagens. Mas em que área ela ainda fica para trás? No reconhecimento de objetos, de acordo com um novo estudo.

Os seres humanos identificam objetos com base em diversas características, que vão da textura à silhueta, muitas vezes fazendo inferências para preencher as lacunas quando algo é um pouco diferente do habitual. Quando os modelos de IA são treinados com enormes quantidades de imagens, eles também aprendem a reconhecer padrões que indicam a identidade de diferentes objetos.

Para testar esses modelos, os pesquisadores alteraram imagens de objetos animados e inanimados — incluindo gatos, carros e espigas de milho — modificando suas formas, silhuetas ou texturas. Em seguida, apresentaram 240 imagens modificadas a 60 participantes humanos e a vários modelos de IA.

Eles descobriram que os modelos de IA tiveram desempenho consistentemente inferior ao dos seres humanos no reconhecimento de objetos, especialmente quando a forma havia sido modificada.

“Esses resultados mostram que os atuais modelos de visão computacional ainda não estão totalmente alinhados com a percepção humana, apesar de terem sido treinados com um número enorme de imagens produzidas por seres humanos”, afirmou o autor Biyu He em um comunicado. “A capacidade dos seres humanos de utilizar a forma global como um indício para o reconhecimento visual de objetos continua incomparável.”
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Fonte: revista 'Science' - 21/09/2026

quarta-feira, 2 de julho de 2025

O que acontece depois que a IA destruir a capacidade de escrita na Universidade?

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O fim de artigos originais escritos em inglês encerrará uma longa tradição intelectual, mas também é uma oportunidade para reexaminar o propósito do ensino superior [excerto de matéria da revista novaiorquina]

Hua Hsu - The New Yorker * 01/07/2025

Em uma tempestuosa quinta-feira de primavera, logo depois das provas de meio de período letivo, fui comer um macarrão com Alex e Eugene, dois estudantes de graduação da New York University, para saber deles como usam a IA (Inteligência Artificial) nos trabalhos de escola. Quando primeiramente encontrei Alex, no ano passado, ele estava interessado em seguir carreira em Artes e devotava uma porção de seu tempo livre para tirar fotos com seus amigos. Porém, ele tinha recentemente se decidido por um caminho mais prático: queria se tornar um CPA (Contador profissional). Suas quintas-feiras eram bem ocupadas, e ele tinha só 45 minutos até a próxima sessão de estudos da turma de contabilidade. Ele ajeitou seu skate debaixo de um banco do restaurante e puxou seu laptop da mochila, conectando-se à internet antes que tomássemos nossos assentos.

Alex tem cabelos ondulados e fala numa cadência ritmada de alguém que passou bastante tempo na Bay Area de São Francisco. Ele e Eugene olharam o menu, e Alex disse que queria um caldo simples, sem temperos, "assim podemos ambos manter nossos cuidados com a pele". Semanas antes, eu havia mandado uma mensagem, e ele tinha dito que todo mundo que ele conhecia usava o ChatGPT de alguma maneira, mas que ele utilizava somente para organizar seus apontamentos. Pessoalmente, ele admitia que isso não era nem de longe verdade. "Para qualquer tipo de necessidade de escrita na minha vida, eu uso IA", disse ele. Ele se apoiava no Claude [um dos diversos LLM - Grandes Modelos de Linguagem - existentes no campo das IA]para pesquisas, no DeepSeek para argumentação e explicações, e no Gemini para geração de imagens. O ChatGPT servia mais para necessidades gerais. "Eu preciso da IA para mandar mensagens para garotas", brincou ele, imaginando uma versão aprimorada de IA do Hinge [um aplicativo online para marcar encontros]. Perguntei se tinha usado IA para acertar nosso encontro. Ele riu e respondeu: "Honestamente, sim. Mas não estou tentando digitar tudo. Conseguiu perceber?"

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Motor de busca baseado em Inteligência Artificial (AI) - você confiaria?

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Google, Microsoft e Baidu estão usando ferramentas como o ChatGPT para fazer uma busca na Internet virar uma conversação.  Como isto irá mudar a relação da Humanidade com as máquinas?

Nature Briefing - 13/02/2023


A Inteligência Artificial está chegando às buscas de Internet.  Na semana passada, três dos maiores motores de busca do mundo - Google, Bing e Baidu - disseram que vão integrar o ChatGPT (de AI) ou tecnologia similar em seus produtos para buscas, permitindo que as pessoas obtenham respostas diretas, ou se engajem em uma conversação, sobre uma palavra ou pergunta, em vez de meramente receberem uma lista de links após digitarem essa palavra ou questão.

No entanto, problemas com falta de acurácia (precisão) e falta de transparência poderiam causar perda de confiança dos usuários na busca baseada em chats, dizem pesquisadores.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

'Deep-fake', a arma radical contra a democracia

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Como tornou-se possível hackear a realidade, manipulando-a de forma tão crível. As implicações dramáticas na política: pode haver debate público em meio a múltiplos mundos paralelos? Como a ultradireita planeja criar um caos cognitivo.

Por Tomás Ansorena, traduzido por Simone Paz ao site Outras Palavras

Em menos de seis anos, o desenvolvimento da inteligência artificial tornou possível que quase qualquer um pudesse criar imagens falsas indistinguíveis da realidade. Do negócio pornográfico ao golpe no Gabão, a Internet dissemina essa nova ameaça fantasma: a de nunca mais sabermos o que é verdade.

Nas últimas eleições legislativas em Nova Déli, o candidato Manoj Tiwari surpreendeu seus eleitores com um vídeo falando em hindi, outro em inglês e outro em haryanvi. Antes de se tornar a figura principal do Partido Popular Indiano (BJP, na sigla em hindi) na capital do país, Tiwari foi ator, cantor popular e estrela de um reality show, mas ninguém desconfiava que ele falasse inglês (capital muito valorizado nas classes urbanas), e muito menos o dialeto da região de Haryana. 

Alguns dias depois, a verdade foi descoberta: uma agência publicitária propôs ao BJP — mesmo partido do primeiro-ministro Narendra Modi — expandir a oferta eleitoral utilizando inteligência artificial para criar deep-fakes de Tiwari. Com gravações anteriores e software de última geração, puseram em sua boca palavras que ele desconhecia e levaram sua mensagem por WhatsApp para eleitores fora de seus núcleos de apoio. Não é a primeira vez que um candidato altera ou atua com sua voz para abordar novos cidadãos. Nem é o primeiro a usar inteligência artificial na política. Mas, até onde sabemos, é a primeira vez que um candidato transforma seu próprio corpo e voz usando deep learning para melhorar seu desempenho.

A deep-fake surgiu, pela primeira vez, em 2017: ano crucial no boom das fake news. O usuário do Reddit de nome /r/deepfakes postou suas primeiras criações pornográficas usando algoritmos e bancos de imagens gratuitas, com resultados surpreendentes. Em sintonia com o surgimento do TikTok e dos aplicativos de envelhecimento ou rejuvenescimento facial, a técnica desse usuário anônimo se tornou popular e logo o primeiro aplicativo aberto apareceu para incorporar qualquer rosto a algum vídeo já existente. 

Desde Bolsonaro como o Chapolin Colorado, até Cristina Kirchner como a drag queen Ru Paul, a Internet ficou cheia de vídeos com fins principalmente humorísticos, embora a grande maioria ainda seja pornográfica. O mais notável, três anos após o seu aparecimento, é a melhoria da sua qualidade. Em agosto, um fã postou sua própria versão das cenas do jovem Robert De Niro no The Irishman. A comparação entre o trabalho de CGI (imagens geradas por computação gráfica) da Netflix e a deep-fake deste usuário do YouTube — e os milhões de dólares de diferença — dão a diretriz da acessibilidade e eficácia em potencial desta ferramenta.

Para essas criações, é usado um autocoder, que cria uma imagem latente com apenas algumas variáveis ​​(padrões de sorriso, de testa franzida, etc.) e acrescenta mais algumas variáveis à imagem final (os mesmos gestos com outro rosto, ou o mesmo rosto com outro discurso, por exemplo). Mas não se trata só de imagens estáticas ou em movimento, também estamos falando de som.

O falso furo de reportagem, baseado em um áudio viral, sobre a suposta mudança de Lionel Messi para o Manchester City poderia ter acontecido mesmo sem um imitador talentoso. O áudio poderia muito bem ter sido criado com um software como o usado pelo Boston Children’s Hospital para recriar as vozes daqueles que perderam a fala. Em setembro, ficamos sabendo do primeiro grande golpe da deep-fake: de acordo com o Wall Street Journal, o CEO de uma empresa inglesa transferiu 220 mil euros, atendendo as ordens de um software que imitava a voz de seu chefe alemão.

A mera existência dessa tecnologia não só possibilita a criação de fakes — com consequências políticas e sociais inusitadas — como também destitui a realidade de seu status: se o que realmente existe pode ser adulterado ou inventado diretamente, todos têm o direito à desconfiança. Como contou Rob Toews na Revista Forbes, o exemplo mais paradigmático desse problema ocorreu no Gabão. Por muitos meses, em 2018, seu presidente, Ali Bongo, não apareceu publicamente. Rumores sobre sua saúde, e até mesmo a suspeita de que ele havia morrido, forçaram o governo a revelar que Bongo sofreu um AVC, mas que estava se recuperando e que faria um discurso no Ano Novo. Os movimentos rígidos e aparentemente artificiais do líder na mensagem gravada despertaram rapidamente a psicose da oposição: o vídeo é falso, exclamaram. Uma semana depois, baseados na suposta acefalia do governo, uma fração do Exército quis dar um golpe no Gabão, mas foi reprimido… pelo próprio Bongo, que continua a liderar o governo. O vídeo não tinha sido falsificado.