Provar uma refeição deliciosa é um dos mais simples prazeres da vida. Mas a comida pode por vezes ser gostosa demais, induzindo-nos a continuar mastigando mesmo quando nem temos mais fome.
ScienceAdviser - 02/04/2025
Este comportamento, conhecido como alimentação hedonista, pode às vezes levar a comer além da conta e à obesidade. Recentemente, experimentos em camundongos revelaram que neurônios que se projetam de uma parte do cérebro chamada área tegmental ventral (ATV) podem ser os culpados disso.
Embora a ATV seja frequentemente considerada como o "centro de recompensa" do cérebro, pesquisas anteriores sugeriram que a manipulação dos neurônios liberadores de dopamina nesta área pode reduzir o consumo de comida. Os autores de um novo estudo na revista Science descobriram, contudo, que os neurônios dopaminérgicos da ATV eram disparados somente enquanto os camundongos estavam no processo da alimentação - e se tornavam mais ativos em resposta a uma comida mais saborosa e densa em energia. A estimulação desses neurônios fez com que os animaizinhos continuassem comendo, ao mesmo tempo inibindo o consumo reduzido de alimento. A manipulação dos neurônios quando os camundongos não estavam comendo, entretanto, não teve nenhum efeito sobre seus comportamentos. A equipe de pesquisa também descobriu que, quando tratados com a droga anti-obesidade semaglutide, os camundongos exibiam baixa atividade neuronal dopaminérgica na ATV e ingeriam menos comida. À medida que esses camundongos perdiam peso, contudo, a atividade dos neurônios e o consumo de comida agradável aumentavam - potencialmente explicando porque esses medicamentos nem sempre suprimem o hábito de comer demais em alguns indivíduos.
Embora este recentemente descoberto circuito cerebral possa levar ao consumo prolongado de comida, a neurocientista Dana Small assinala, na publicação correlata Science Perspective, que é difícil dizer se os animais realmente achavam a experiência de comer mais prazerosa - e que décadas de pesquisas com seres humanos e roedores "falharam em vincular dopamina com prazer". Ela acrescenta que, ao passo que drogas como o semaglutide podem, com sucesso, induzir perda de peso, elas não fazem com que a experiência de comer um alimento bom seja menos aprazível.